
NAIR GURGEL
Antes de Rondônia existir no mapa, antes mesmo de alguém imaginar Porto Velho, uma mulher negra governava às margens do Guaporé. Seu nome era Tereza. E, enquanto os homens da Coroa discutiam quem mandava sobre aquelas terras, ela já governava gente.
Talvez muita gente ainda não conheça essa história. Tereza de Benguela não ocupa, na memória brasileira, o espaço reservado a tantos outros personagens de nossa História. Descobri sua trajetória e me encantei com sua resistência.
O Brasil tem heróis e heroínas que mereciam sair das margens dos livros e entrar pelas portas das escolas.
Tereza é uma delas.
Penso que minha identificação com sua história tenha também alguma geografia. Sua vida se desenrolou em territórios que reconheço como meus por pertencimento afetivo: entre o Pantanal e a Amazônia, nas terras atravessadas pelo Guaporé.
Tereza viveu no século XVIII e tornou-se líder do Quilombo do Quariterê, também conhecido como Quilombo do Piolho, na região do Vale do Guaporé, nas proximidades de Vila Bela da Santíssima Trindade, atual Mato Grosso.
Nem mesmo sua origem conhecemos com segurança. Algumas narrativas afirmam que teria vindo de Angola; outras sustentam que poderia ter nascido no Brasil.
Há silêncios que a História produz. E há silêncios que dizem muito sobre quem teve o direito de ser registrado nela.
Depois da morte de Piolho, Tereza assumiu o comando da comunidade e permaneceu à frente dela durante muitos anos.
Mas Tereza não foi apenas uma guerreira. Foi governante.
Um registro colonial de 1770 revela que ela dirigia o quilombo com uma espécie de conselho. Havia uma casa destinada às reuniões, realizadas em determinados dias, e Tereza presidia as decisões. O próprio documento colonial, usando o vocabulário de seu tempo, chegou a chamar aquela estrutura de uma espécie de “Senado”.
É aí que sua história se torna ainda mais extraordinária.
Tereza deixa de aparecer apenas como a mulher negra que resistiu à escravidão e surge como alguém capaz de organizar politicamente uma sociedade dentro do Brasil colonial.
O Quariterê reunia negros, indígenas e mestiços. Produzia milho, feijão e mandioca, mantinha relações de troca, possuía produção artesanal e organizava sua própria defesa.
Enquanto a sociedade colonial dizia que aquelas pessoas pertenciam a alguém, elas construíam uma comunidade na qual decidiam sobre a própria vida.
O escravizado, definido juridicamente como objeto, tornava-se sujeito.
A mulher negra, colocada no ponto mais baixo da hierarquia colonial, tornava-se autoridade.
O quilombo, descrito pelo poder como problema, revelava-se comunidade, economia, organização política e projeto de liberdade.
Num Brasil em que mulheres negras podiam ser compradas e vendidas, Tereza decidiu governar.
Uma comunidade autônoma, organizada e armada desafiava o poder colonial. O Quilombo do Quariterê sofreu sucessivas expedições repressivas e foi atacado de maneira decisiva em 1770. Tereza foi capturada e morreu pouco depois. Nem sequer sabemos com absoluta segurança como morreu.
Sabemos muito sobre governadores, bandeirantes, capitães-generais e expedições militares. Dos que estavam do outro lado da espada, muitas vezes sobraram fragmentos.
Tereza costuma ser chamada de Rainha Tereza ou Rainha do Quariterê. Sua resistência aconteceu naquela grande região histórica atravessada pelo Guaporé.
E os documentos que falam dos quilombos também precisam ser lidos com cuidado. Muitos foram escritos justamente por aqueles que desejavam destruí-los. Por isso, as palavras mudam quando mudamos o lugar de onde olhamos.
Aquilo que o colonizador chamou de fuga pode ser chamado de libertação.
A rebeldia pode ser resistência.
O quilombo pode ser comunidade.
A criminosa pode ser governante.
E Tereza deixa de ser problema da Coroa para ocupar o lugar que lhe pertence na História brasileira.
Séculos depois, sua memória ganhou reconhecimento nacional. A Lei nº 12.987/2014 instituiu o dia 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, mesma data em que se celebra o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.
Tereza deixou, portanto, de pertencer apenas ao século XVIII. Transformou-se em símbolo da resistência das mulheres negras brasileiras.
Governou numa época em que uma mulher como ela sequer era reconhecida plenamente como sujeito de direitos. Governou uma comunidade perseguida justamente porque ousava desafiar uma das instituições sobre as quais se sustentava o Brasil colonial: a escravidão.
Tereza não esperou que lhe concedessem poder. Exerceu-o.
E o Guaporé, que já viu passar conquistadores, escravizados, soldados, canoeiros, fronteiras e impérios, continua correndo.
É que os rios têm uma memória que os homens às vezes perdem.
O Guaporé não esqueceu Tereza.


