RAÍZES, RUMOS E VERSOS – Não gosto de legislar em causa própria e aprendi muito cedo que isso não é recomendável

 

ADAIDES BATISTA DOS SANTOS – DADÁ

Sou um cidadão de setenta e oito anos, como diria mãe, “dentro dos setenta e nove”, a um passo de me tornar idoso, pois idoso é aquele que tem mais de oitenta anos de vida, não interessa a qualidade, se tem lucidez, se caminha com suas próprias pernas, ou se está prostado num leito, como diria o Maluco Beleza, “esperando a morte chegar”.

No colégio Getúlio Vargas, no bairro do Areal, lí em um daqueles livros que o governo doava aos alunos. Deixa-me dizer. Isso era uma revolução o governo doar livros para as crianças. Num desses livros li um poema do Padre Antônio Tomás que eu declamo até hoje:

Contraste
Quando partimos no verdor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, céleres e ufanos,
Vamos marchando descuidosamente…
Eis que chega a velhice, de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então, nós enxergamos, claramente,
Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede exatamente

O contrário dos tempos de rapaz:
— Os desenganos vão conosco à frente,
E as esperanças vão ficando atrás.

Depois sobre o mesmo tem tema , lá pelos da décadas de 70 século 20 ouvi no segundo do Chico Buarque essa observação sobre o velho em versos poéticos e musicais:
O velho sem conselhos
De joelhos
De partida
Carrega com certeza
Todo o peso
Da sua vida
Então eu lhe pergunto pelo amor
A vida inteira, diz que se guardou
Do carnaval, da brincadeira
Que ele não brincou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nada
Só a caminhada
Longa, pra nenhum lugar

O velho de partida
Deixa a vida
Sem saudades
Sem dívida, sem saldo
Sem rival
Ou amizade
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me diz que sempre se escondeu
Não se comprometeu
Nem nunca se entregou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nada
Eu vejo a triste estrada
Onde um dia eu vou parar

O velho vai-se agora
Vai-se embora
Sem bagagem
Não sabe pra que veio
Foi passeio
Foi passagem
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me é franco
Mostra um verso manco
De um caderno em branco
Que já se fechou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Não
Foi tudo escrito em vão
Eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar

Depois ouvi e li Caetano Veloso:
O homem velho deixa a vida e morte para trás
(Para trás)
Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais
(Nunca mais)
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais
A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
(Pedra ao sol)
As linhas do destino nas mãos, a mão apagou
(Apagou)
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n’roll
As coisas migram e ele serve de farol
A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fugaz
Do sexo das meninas
Luz fria, seus cabelos têm tristeza de neon
(De neon)
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
(Sem um som)
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom
Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval
(Vendaval)
Espalham no além da ilusão do seu ser pessoal
(Pessoal)
Mas ele dói e brilha único indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal
A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fugaz
Do sexo das meninas
A carne, a arte, arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fugaz
Do sexo das meninas

A velhice é própria de cada um. A velhice guarda a sabedoria. Amém!

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