Do tempo dos saltos e das cachoeiras

MONTEZUMA CRUZ

De tempos em tempos costumamos lembrar saltos e cachoeiras que haviam ao longo do Rio Madeira em Rondônia. Eram cenários maravilhosos, alguns deles, desafiadores.

Quando cheguei a Porto Velho, em 1976, ouvia na Redação do jornal “A Tribuna” diversos comentários a respeito dos passeios familiares e dos torneios de pesca (alô, Lions Clube!) nos saltos de Santo Antônio e Teotônio.

Tive a sorte de levar meus filhos Otávio Luís e Vânia de Lourdes para brincar nas pedras em 1979 e 1980, em companhia do jornalista Luiz Roberto da Cruz e sua Elisabete. Nesse mesmo período, o saudoso amigo jornalista Talvani Guedes da Fonseca ia buscá-los em casa para o passeio de trem da Madeira-Mamoré, cujo trecho de 7 Km entre a estação central e Santo Antônio fora reconstruído pelo governo territorial.

O lendário maior afluente da margem direita ostentava lugares bonitos. Um painel fotográfico no Museu da EFMM mostra homens na travessia de um dos saltos. A transposição demorava, o cuidado para não perderem pelas de látex era grande.

O exercício da memória nos põem a refletir a respeito de mapas guardados em armários de metal no Museu da Memória Rondoniense- o antigo Palácio Presidente Vargas. Apenas guardados, pois o acesso a pesquisadores e à população de Rondônia está suspenso até que o Palácio seja reformado.

Infelizmente, a reforma anunciada pelo atual governo estadual ficou no papel. Começaram a pintar o prédio de rosa, não deram sequência, e a tinta já desbotou.

O telhado que deveria ser trocado ainda é o mesmo de antigamente. Faltam bancos, sofás e cadeiras para visitantes. Servidores atônitos já não sabem mais como se desculpar com as pessoas.

Dentro do Museu da Memória, mapas originais da cidade, elaborados nos Estados Unidos, poderão ser um dia digitalizados. Se alguém acredita nisso, também arrisco acreditar em que milhares de páginas de jornais antigos passam ganhar esse mesmo cuidado, uma vez que estão sujeitos a desaparecer.

Muito triste ver esse enorme descaso com a memória histórica, científica e cultural de Porto Velho e de Rondônia. É preciso paciência de Jó — e não a temos — para suportar esse fardo pesado na consciência.

Sim, temos parte no afunilamento dessa situação, devido às escolhas políticas e à confiança em autoridades. Hoje, se depender dos mais antigos, ninguém confia mais em ninguém.

A salvação do acervo do Museu da Memória Rondoniense, ou se dará a fórceps por quem vencer as eleições de 2026, ou virá em aborto cultural por alguma Lei de Incentivo obtida por algum milagreiro.

Calo-me, já falei demais.

Localização de saltos e cachoeiras, desde a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré

Otávio Luís e Vânia, filhos do repórter, na manhã de um domingo de 1980, em Santo Antônio

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