NAIR GURGEL
Estou escrevendo um livro que envolve histórias e comidas, desses Once upon a time. Foi então que pensei em juntar a fome com a vontade de comer, lembrando que todo texto tem sabor, todo leitor tem apetite e a escrita nutre.
Vocês comeriam a baba de uma moça? O olho da sua sogra? A orelha de um padre? Uma cueca virada ou uma roupa velha? E olha que eu nem falei no pé do moleque, no sovaco da cobra e no papo do anjo…
Quando eu era criança, lá no Pantanal Sul-Mato-Grossense, já comia Vaca Atolada, Cachorrada, Mata Velho e Espera Marido. Aqui, em Porto Velho/RO, fiquei sabendo que:
Bolo Podre é um tipo de pão de queijo que se faz com farinha de tapioca;
Peixe Tchibum é uma forma simplificada de cozinhar o peixe – praticamente na água e no sal;
Caldo da Caridade é uma espécie de sopa feita com água temperada, farinha seca e ovo. Serve para dar sustança ou tirar ressaca;
Capitão é um bolinho amassado com a mão, feito de sobras de peixe com farinha d’água;
Pirarucu de Casaca é pirarucu seco desfiado com banana frita e farinha d’água;
X-Caboquinho é um sanduiche de tucumã, queijo, banana frita e pão;
Caralhada é uma caldeirada feita com o peixe Cará;
Bife do Olhão é ovo frito e Boi Ralado é carne moída.
Porém, o melhor mesmo é a linguagem que acompanha a culinária.
Se alguém diz que está brocado – está com fome;
Se quer rangar – quer comer;
Se está com fastio – está sem fome;
Se reclama da comida insossa – está sem sal;
Se está queimoso – é apimentado;
Se está pitiú – o cheiro é ruim.
E tem mais. Aqui em Rondônia, somos juntos e misturados. Querem ver?
Espalhados por todas as cidades do Estado, existem os piás, as gurias, os moleques, os curumins. Somos beradeiros, parentes, manos e, por isso, aqui cabe uma ruma de gente, espalhada pelo estado todo. Gente que trouxe na bagagem cultural o chimarrão, o pão de queijo, o baião-de-dois, o tereré, a maniçoba, o arroz com pequi, o acarajé, a rapadura e misturou com o tucupi, o açaí, o tambaqui e o jaraqui.
Somos hibridizados. Essa é a nossa identidade.
Então, pode chegar mais, maninho, pois a farinha não é pouca, o carapanã já voou e telezé é só uma expressão popular e oralizada que usamos em diferentes contextos.
Ah! E Rondônia é tri legal, porreta, bão demais da conta, no 12!
E eu vou tomar um tacacá.


