
Por Montezuma Cruz
Nas primeiras eleições do novo estado, Tribunal Regional Eleitoral, Governo e INCRA quase sempre ofereciam situações de confronto, por óbvios motivos: calejado por votar apenas em vereador e um único deputado federal até 1982, o eleitor rondoniense exercia o seu direito à fiscalização de candidaturas, das mais simples àquelas visadas pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) da ditadura.
O advogado Maurício Calixto apresentava um programa às 12h30 na Rádio Eldorado do Brasil. Quando teve a candidatura a deputado federal aprovada pelo PDS*, espertamente mudou o horário para “entrar no ar”, escolhendo 12h33, coincidentemente o número dele registrado no TRE.
Eu e o jornalista Evamar Mesquita escrevemos uma denúncia com ácida tonalidade, descrevendo o oportunismo de Maurício. O fato de ser repórter de “O Estadão de Rondônia” (depois, do Norte) já me precavia sobre possível reação de Maurício: “Vou ser demitido”, acreditava. Fui mantido, Maurício era nosso amigo.
No entanto, na sede do TRE o juiz eleitoral Darci Ferreira reagiria irritado e magoado ao ler nossa denúncia, na qual colocávamos suspeita de que a Corte “favorecia o PDS.”


Na realidade, por ordens do governador territorial, coronel Jorge Teixeira de Oliveira, servidores públicos – incluindo os do INCRA – deveriam convencer o eleitor a votar no partido do governo para receber em seguida um lote de terras.
Lembrando essa situação, Mesquita conta que esteve na sede do Tribunal de Justiça (ainda no antigo Fórum Rui Barbosa, na Praça Rondon), quando o juiz lhe indagou: “Esse escrito de vocês foi coisa do diabo do Tomás, né?. “Não, doutor Darci, foi de nosso entendimento e nós escrevemos livremente o documento”, respondia-lhe Mesquita.
Darci se referia ao então deputado constituinte Tomás Guilherme Correia, ferrenho adversário do governador Teixeira.
Perplexo e pensativo, o juiz aumentava o tom de voz: “Vou devolver o veneno às cobras”. Ao que Mesquita imediatamente arriscava: “Lamento, mas o senhor não tem competência para isso.”
Finalmente, durante uma entrevista coletiva na sede do TJ, chegou a vez de Mesquita perguntar ao presidente, desembargador Fouad Darwich Zacharias, mas este o interrompeu rispidamente: “Não respondo pergunta de comunista, o senhor atacou o Tribunal.”
Quando juiz em Guajará-Mirim, Darci Ferreira um dia decretou “toque de recolher” à população, e noutra ocasião encontrou litros de uísque e gim na geladeira de um bar. Dirigindo-se ao proprietário determinou a retirada de bebidas destiladas da geladeira, sob pena de prisão.
Esfriados os ânimos após nossa insurgência, voltamos a conversar normalmente com ele algumas vezes antes dos resultados das primeiras eleições.
A diferença daquele período para os tempos atuais se resume em dois prismas: o diálogo e o respeito pessoal. Mesquita era correspondente e distribuidor do jornal “A Voz da Unidade”, de São Paulo, ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB); eu, correspondente do “Jornal do Brasil” e candidato a deputado estadual pelo PT.
* Sigla do Partido Democrático Social, governista, pelo qual se elegeram os três primeiros senadores do novo estado, e oito deputados federais.


