Primeira mulher negra a presidir a Assembleia Legislativa e a ocupar o segundo cargo mais importante do Executivo, líder de 82 anos detalha os bastidores de sua carreira, o apoio familiar e sua rotina atual em Porto Velho
Odaísa Fernandes consolidou uma trajetória de mais de vinte anos na vida pública em Rondônia. Mulher negra e de origem periférica, ela foi a primeira a ocupar cargos de alta relevância no estado. Atualmente, aos 82 anos, viúva, mãe de quatro filhos, sete netos e dez bisnetos, ela resgata as memórias de uma carreira marcada pela priorização das demandas sociais, pelos bastidores de grandes conquistas políticas e pelos desafios de conciliar a vida pública com o ambiente familiar.
Início da Trajetória e Ascensão Política

Nascida em Porto Acre, Odaísa migrou para Rondônia ainda criança. Antes de ingressar na política, trabalhou como costureira, secretária, vendedora e copeira na Câmara Municipal de Porto Velho. Em 1982, iniciou sua carreira política ao ser eleita para o cargo de vereadora no município de Porto Velho. Nas eleições de 1986 e 1992, foi eleita para o cargo de deputada estadual. Ela integrou o grupo das primeiras deputadas estaduais e foi a única a presidir em definitivo a Assembleia Legislativa (ALE-RO). Em 1988, foi uma das fundadoras do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), no qual atuou como secretária geral e presidente regional em Rondônia. Exerceu o mandato de deputada federal por Rondônia em 1998, como suplente em exercício, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar o cargo de deputada federal pelo estado. Em 2002, Odaísa Fernandes foi eleita vice-governadora de Rondônia.
Bastidores da Primeira Campanha e Apoio Familiar

A campanha de 1982 para a Câmara Municipal foi realizada sem recursos financeiros, após o convite do presidente da Casa para compor a chapa partidária. Com o auxílio do marido, dos filhos e dos vizinhos, ela obteve 1.274 votos e foi a quinta vereadora mais votada. Ao analisar sua trajetória, Odaísa atribui a viabilidade de sua rotina parlamentar e executiva ao total apoio e suporte de seu marido, José Timóteo Ferreira, que foi fundamental para sua dedicação integral à vida pública.
Atuação Legislativa

Como presidente da Comissão da Ordem Social durante a elaboração da Constituição Estadual de 1989, Odaísa foi autora de projetos focados em direitos sociais. Entre suas principais propostas aprovadas estão: a estruturação da Delegacia da Mulher em Rondônia; a instituição da Fundação de Hematologia e Hemoterapia de Rondônia (FHEMERON); a regulamentação do planejamento familiar; a criação de estímulos fiscais e facilidade de créditos para empresas privadas que contratassem pelo menos 10% de funcionários com deficiência; a criação do Crédito Educativo para financiar os estudos de alunos necessitados de suporte financeiro. Ela também incluiu na Constituição Estadual o custeio estatal dos Jogos Escolares de Rondônia (JOER).
Atuação no Poder Executivo

Assumiu, em 1985, a titularidade da Secretaria Municipal de Ação Social e trabalhou diretamente na fundação dos bairros Tancredo Neves e JK, além de ter coordenado a regularização fundiária dos bairros São Sebastião e Costa e Silva. Em 2002, Odaísa Fernandes foi eleita vice-governadora de Rondônia, sendo a única mulher negra a atingir este posto na história do estado. Sua gestão foi caracterizada pelo foco em políticas de assistência social e no combate às desigualdades.
Vida Atual e Engajamento Social
Odaísa mantém uma rotina ativa em Porto Velho. Sua trajetória na administração pública e no parlamento é frequentemente resgatada por órgãos oficiais, acumulando múltiplas homenagens e condecorações em âmbitos municipal e estadual. Entre as honrarias recebidas, destacam-se o Prêmio Mulheres Negras, concedido por sua representatividade e relevância histórica, além de reconhecimentos e premiações da Câmara de Vereadores de Porto Velho, município onde iniciou sua carreira pública. No âmbito estadual, recebeu a Medalha do Mérito Legislativo e o Título Honorífico de Cidadã Honorária do Estado de Rondônia, oficializados em reverência à sua dedicação ao desenvolvimento regional. Aos 82 anos, Odaísa Fernandes continua sendo uma referência de liderança para mulheres negras e periféricas que buscam representatividade nos espaços de poder.
Por Juliana Hernandez de Figueiredo é graduada em Direito, graduanda em Psicologia e pós-graduada em Inclusão e Direito das Pessoas com Deficiência, Transtorno do Espectro Autista, Neuropsicologia Aplicada ao Autismo, Direitos Humanos e Direito Médico. Coautora do livro “Autismo: Quando o diagnóstico chega” Vol. 1, editora Literare Books Internacional.

