DIVERSIDADE CULTURAL E LINGUAGEM – A universalidade da maçã e a ancestralidade dos frutos amazônicos

NAIR GURGEL

Fonte: Marco De Angelis (Roma, 1955) “A Importância da Maçã”. 

Sabe aquele dia em que você acorda tranquilo, toma um café, abre as redes sociais e, de repente, dá de cara com uma imagem que faz pensar mais do que devia? 

Foi assim que encontrei uma charge de Marco De Angelis. À primeira vista, parecia apenas uma piada esperta. Bastou olhar de novo para perceber: aquilo era quase um tratado sobre a humanidade. E, claro, sobre uma fruta. 

A maçã. 

Sim, ela mesma. Essa fruta aparentemente inofensiva, suculenta, docinha, transformou-se, ao longo dos séculos, numa verdadeira encrenqueira profissional. Onde há confusão histórica, mítica, literária ou tecnológica, lá está ela. 

Na charge, várias personagens estão reunidas à mesa. O garçom chega sorrindo, trazendo uma maçã na bandeja. E eu só consigo pensar: 

– Quem vai ser o primeiro a se meter nessa roubada? 

Eva, naturalmente, olha desconfiada. Tem um histórico complicado com essa fruta. Aquela mordida custou-lhe o paraíso, rendeu séculos de culpa teológica e, de quebra, transformou-a em bode expiatório da humanidade. A serpente, enrolada ali por perto, apenas observa. Malandra. 

Isaac Newton talvez esteja calculando a trajetória da maçã e verificando se existe força gravitacional suficiente para fazê-la cair da bandeja diretamente no colo dele. Afinal, certas histórias precisam apenas de uma fruta no lugar certo e na hora certa. 

Guilherme Tell, por sua vez, conhece bem o perigo de misturar maçãs e pontaria. Imagino o filho pensando que teria sido bem mais tranquilo nascer na era do videogame. 

Branca de Neve provavelmente ensaia um: 

– Não, obrigada. 

Depois da última maçã que aceitou, trauma é pouco. 

E ainda temos o mundo tecnológico. A maçã deixou a árvore, entrou nos computadores e celulares e ganhou senha, nuvem, atualização e vírus – agora digital. 

Há também o pomo dourado associado a Afrodite e à discórdia que antecede a Guerra de Troia. A pobre fruta acumulou um currículo impressionante: pecado, conhecimento, gravidade, perigo, beleza, tecnologia, disputa… 

Olho novamente para a imagem. 

Talvez aquela mesa não seja apenas sobre personagens. Talvez seja sobre nós e sobre a facilidade com que transformamos objetos em símbolos e depois passamos séculos contando histórias em torno deles. 

A maçã muda de significado conforme muda de discurso. Fruto proibido, conhecimento, descoberta científica, conto infantil, marca tecnológica, discórdia. 

E o garçom continua ali, oferecendo-a como quem pergunta: 

– E então? Qual será a escolha de hoje? 

A grande pergunta é: a maçã nos persegue ou somos nós que continuamos mordendo-a? 

Bem… 

Vamos descascar esse abacaxi? 

Pensando melhor, acho que vou pedir um tucumã. Ou um suco de cupuaçu bem gelado, porque aqui o calor não costuma respeitar metáforas. 

Foi então que outra pergunta me ocorreu: 

– Por que, quando contamos a história do mundo por meio dos frutos, a maçã ocupa quase toda a mesa? 

Está na hora de puxarmos mais algumas cadeiras. O que acham? 

Os frutos amazônicos não estejam inscritos naquilo que aprendemos a chamar de “história universal”, mas isso diz menos sobre eles do que sobre quem escreveu essa história. 

Eles habitam outros arquivos. A oralidade. Os mitos. A memória. Os conhecimentos indígenas. A floresta. 

E carregam histórias muito anteriores às prateleiras dos supermercados. 

O guaraná, por exemplo, guarda na tradição Sateré-Mawé uma narrativa de morte e renascimento. Dos olhos de uma criança enterrados em solo sagrado nasce o guaranazeiro. Quando o fruto amadurece, a casca vermelha se abre e deixa aparecer a semente escura envolvida pela parte clara: um fruto que parece olhar de volta para quem o contempla. 

A pupunha também atravessa narrativas de origem, alimento, sobrevivência e relações entre diferentes planos da existência. Na cosmologia Desana, ela participa de histórias que ligam mundos e seres, natureza e espiritualidade. 

E há o açaí. 

A narrativa de Iaçã fala de fome, perda e transformação. Depois da morte de seu bebê, a jovem é encontrada junto a uma palmeira carregada de pequenos frutos escuros. Deles vem o alimento que ajuda a comunidade a superar a fome. 

São histórias diferentes. Povos diferentes. Cosmologias diferentes. 

Mas há algo que as aproxima: o fruto não aparece sozinho. 

Ele vem acompanhado de território, memória, conhecimento, sobrevivência e ancestralidade. 

Hoje, pesquisas arqueológicas e botânicas reforçam algo fundamental: a floresta amazônica guarda marcas antigas da presença, do manejo e dos conhecimentos dos povos que nela viveram e vivem. 

Então volto àquela mesa. 

De um lado, a maçã atravessando séculos de histórias que aprendemos a chamar de universais. 

Do outro, guaraná, pupunha, açaí, tucumã, cupuaçu e tantos outros frutos atravessando milênios de histórias que nem sempre chegaram aos livros escolares. 

Talvez a questão não seja substituir uma fruta por outra. 

Nem expulsar a maçã da mesa – coitada, ela já carregou culpa suficiente desde Eva. 

A questão é aumentar a mesa. Abrir espaço para outras narrativas, outros saberes, outras memórias. 

Depois de tanta história, começo a desconfiar de que a maçã não é universal. Universal mesmo é essa necessidade humana de transformar alimento em símbolo, natureza em narrativa e memória em herança. 

Olho novamente para o garçom. Desta vez, imagino outro chegando. 

Um garçom indígena aproxima-se da mesa carregando uma grande bandeja. Nela, nenhuma maçã. Há guaraná, pupunha, açaí, tucumã e cupuaçu. 

Ele pergunta: 

– O que a senhora vai querer hoje? 

Sorrio. 

E respondo: 

– A fruta de hoje é memória ancestral. 

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