
NAIR FERREIRA GURGEL DO AMARAL
Antes, havia um som. Quem chegava à Cachoeira do Teotônio ouvia de longe a água batendo forte nas pedras, insistente, como se falasse. E falava.
Ali existia o Paredão. Um degrau de pedra e água, imponente e perigoso, onde o rio parecia se erguer contra si mesmo. Era ali que os peixes se juntavam, sobretudo na piracema e onde apenas os mais experientes se atreviam a lançar a tarrafa. A pesca era de rodízio: um por vez, em respeito à força do lugar.
Hoje, resta o nome e a memória. Porque há histórias que não cabem em relatórios técnicos.
Lembro-me de uma delas não contada por engenheiros nem registrada em atas, mas escrita por uma criança que morava ali, à beira do rio:
O PAREDÃO
Aqui na Cachoeira do Teotônio tem um lugar muito bonito e perigoso que se chama Paredão. Muitas coisas já aconteceram no Paredão. Umas são verdadeiras, outras são da imaginação das pessoas.
Essa que eu vou contar aconteceu com o meu pai. Ele foi tarrafear no Paredão e viu que, lá de baixo, tinha um cara em cima das pedras. Ele tarrafeou em cima de um jaú, mas não conseguia puxar o peixe, porque era muito grande e pesado. Então chamou: – Ei, me ajuda a puxar a tarrafa? O cara ficou parado.
Chamou de novo: – Ei, me ajuda aqui? Nada.
Meu pai ficou bravo e resolveu subir. Quando chegou lá em cima, não tinha ninguém. Olhou para baixo – o cara estava lá.
Então pensou alto: – Égua! Como pode? Só tem um caminho!…
Encabulado, desceu de novo. Mas, quando chegou lá embaixo, o homem não estava. Estava lá em cima das pedras.
Meu pai amarrou a tarrafa na pedra…e vazou. Cruz credo!
Não sei se era o sol, a solidão ou o próprio rio que brincava com os olhos de quem se aventurava ali. Sei que o Paredão sempre foi lugar de mistério.
Os moradores conversavam com a cachoeira. Não como metáfora – como prática. Escutavam seus avisos, reconheciam seus sinais. Sabiam que ali não era apenas paisagem: era sustento, era risco, era vida. E era também história antiga.
Sob aquelas pedras – hoje submersas – havia marcas de outras presenças: cerâmicas, vestígios, sinais de gente que viveu muito antes de nós. Camadas de tempo acumuladas como sedimento de memória.
Até que veio a água – não a do rio, mas a da barragem.
Quando voltei anos depois, não encontrei o que lembrava. A paisagem tinha sido redesenhada com régua e cálculo. O que antes era força bruta da natureza transformou-se em silêncio domesticado.
Chamam isso de progresso. Mas há palavras que não se deixam domesticar. Desterritorializar, por exemplo, é quando arrancam o chão, não apenas o da terra, mas o da vida. É quando o lugar onde alguém se reconhece deixa de existir e no lugar dele fica apenas um mapa sem memória.
Porque território é pertencimento, hábito, língua. É o modo de pescar, de brincar, de nomear o mundo. Quando se rompe isso, não se desloca apenas um corpo. Desloca-se uma forma inteira de existir. E nem sempre há para onde voltar.
Os ribeirinhos sabem disso. Eles não vivem na natureza – vivem com ela. São parte da correnteza, do ciclo, do tempo do rio. Por isso, qualquer alteração no espaço vivido não é apenas mudança: é desajuste em cadeia. Perdem-se os caminhos, os modos, as práticas. Perde-se, aos poucos, a própria possibilidade de ser quem se era. E, no entanto, algo resiste.
O Paredão já não se vê, mas ainda se conta. Sobrevive nas histórias, nos causos, nas vozes que insistem em lembrar – como a dessa criança, que escreveu o que viu e o que ouviu, sem saber que estava salvando um mundo do esquecimento.
O único território que não conseguem alagar é a palavra. Enquanto houver alguém que diga “meu pai amarrou a tarrafa na pedra e vazou”, o Paredão, de algum modo, ainda está de pé.


