
MONTEZUMA CRUZ
A construção de um museu em Porto Velho seria ideal para guardar e expor imagens e sons da vida territorial no final da década de 1970, período em que o fotojornalista Marcos Santilli conheceu e entrevistou seringalistas, seringueiros, ferroviários, garimpeiros e indígenas. A ideia foi dada por ele próprio, na palestra proferida quarta-feira à tarde no auditório da UNIR Centro, em Porto Velho.
“Estou muito feliz de me encontrar com vocês. Olhando para o tempo em que pisei pela primeira vez nas terras do antigo território federal, senti que ainda precisava devolver a Rondônia aquilo que ela me proporcionou em imagens e histórias tão importantes desse que foi o maior movimento migratório rumo à Amazônia Brasileira” – disse Santilli.
Segundo o fotojornalista, o museu aproveitaria todo o acervo disponível: “Há mais peças, fotos e sons por aí; diversas pessoas guardam lembranças de uma Rondônia que realmente se transformou, daí, a ideia de nos juntarmos para a grande doção é a melhor possível”, afirmou.
O público privilegiado com a projeção de dezenas de eslaides de autoria do palestrante, desfrutou no ambiente do auditório, agora mais aconchegante após a troca suas centrais de ar-condicionado pela Reitoria.
Cinquenta anos atrás, Marcos visitou Rondônia acompanhado de sua ex-companheira, a cantora Marluí Miranda. Foi ela quem passou meses com os indígenas Paiter Suruí, gravando suas canções e cantando com eles.
A palestra Nharamaã (na linguagem Paiter: “apropriação da terra”) aconteceu em clima de congraçamento das pessoas, pela oportunidade de “viajarem no tempo” até a década de 1970, quando Santilli aqui esteve pela primeira vez.
Ao mostrar pessoas fotografadas em diferentes fases da vida, a exemplo de colonos de Ariquemes, seringalistas de Guajará-Mirim, homens, mulheres e crianças brancas e indígenas, o repórter provocou emoções e permitiu comentários na plateia. “Alguns eu reencontrei em outras viagens que fiz para cá, de outros nunca mais tive notícias”, comentou.
O engenheiro William Curi sentou-se à frente, na primeira fila. Criador do Programa Integrado de Colonização do Noroeste Brasileiro (Polonoroeste), ele observou atentamente as imagens mostradas na tela do auditório. Também estava lá o arquiteto Luiz Leite de Oliveira, notável defensor do patrimônio da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que estudo com Santilli na Universidade de Brasília (UnB).
Responsável pelo surgimento de mais de 40 núcleos urbanos de apoio rural, obra projetada ainda no governo do coronel Humberto Guedes, por geógrafos e arquitetos da Universidade de São Paulo e UnB, Curi foi o articulador dos recursos destinados pelo Banco Mundial – 1 bilhão 300 milhões de dólares – para o asfaltamento da BR-364 de Cuiabá a Porto Velho, e demarcação de terras indígenas.

Ivaneide Bandeira, da Kanindé Etnoambiental, identificou indígenas Paiter Suruí que defenderam seu território contra invasões dos colonos que adquiriram lotes da controvertida Colonizadora Itaporanga.
Santilli contou que ao entregar uma foto copiada em papel para uma indígena, ela assustou-se e saiu correndo. “Essa mãe rasgou a foto, porque não queria guardar nada que lembrasse o filho morto.” Em outra situação, uma família de colonos pediu-lhe que fotografasse o velório do filho, vítima da malária.
Na estrada, uma menina segura a galinha; nos rios, crianças se banham alegremente; o suíno esquartejado sobre um jirau, no centro da Nova Ariquemes dava ideia do comércio de carne à beira da rua; na subida do morro de Colorado do Oeste; ferroviários barbadianos, locomotivas e vagões de 1ª e 2ª classes do trem da Madeira-Mamoré; um caminhão leva mudança de uma família, carregando até o cachorro de estimação; caminhões com toras gigantes trafegam pela poeirenta BR-364; castanheiras e samaúma frondosas também encantaram o público.
O secretário municipal de turismo, Aleks Palitot, que antes de ingressar na política fez diversas expedições por Rondônia e países vizinhos, demonstrou muito interesse em resgatar imagens e sons captados por Santilli. Chamou-lhe a atenção, por exemplo, ruínas de uma fortaleza erguida a quilômetros do Forte Príncipe da Beira, em Costa Marques.
A advogada Cíntia Paganotto, as jornalistas Cíntia Xavier e Mirian Franco, o turismólogo e chef de cozinha José Calixto, os fotojornalistas Luiz Brito e Ésio Mendes, a escritora Lindomar Santos, de Cacoal, e estudantes prestigiaram o evento formando uma eclética plateia. A equipe da diretora de cinema Raíssa Dourado fotografou e filmou.
Ao repórter, a advogada admitiu ser possível dialogar com a família Tourinho, a fim de propor a guarda de uma impressora e uma linotipo pertencentes ao extinto e lendário jornal “Alto Madeira”. Essas máquinas estão ao relento. “Desde que exista um lugar adequado e seguro para mostrá-las a antigas e novas gerações”, condicionou elogiando a importância do jornal em diversas fases da história rondoniense.
O fotojornalista Luiz Brito, que está se aposentando no Museu da Memória Rondoniense, considerou “excelente” a ideia e reivindica aos poderes públicos o comprometimento com a construção do museu. “Não é uma obra demorada, nem impossível, mas pode ser a marca de uma administração na consolidação do enorme resgate histórico e cultural que necessitamos fazer”, assinalou.


