RAÍZES, RUMOS E VERSOS – Zeferino Rabelo dos Santos – Meu Pai

ADAIDES BATISTA DOS SANTOS – DADÁ

Meu pai, Zeferino Rabelo dos Santos, nasceu em Novo Aripuanã, no Amazonas, lugar marcado pelo encontro dos rios Aripuanã e Madeira. Sua história começou nesse universo amazônico de grandes rios, floresta e comunidades ribeirinhas. Ainda adolescente, mudou-se para Borba e, mais tarde, foi trabalhar como seringueiro nos seringais da família Lobo, na localidade de Três Casas, pertencente ao município de Humaitá. Foi no meio da floresta, entre árvores, lagos e rios, que conheceu minha mãe, Ceci Batista. Casaram-se e seguiram juntos para Bom Jardim, onde meu pai trabalhou no seringal da família Brasil. Depois, deixou a atividade nos seringais e passou a morar na Ilha dos Mutuns, em frente à localidade de Bom Jardim. Foi naquela ilha, cercada pelas águas do Madeira, que eu nasci.

Éramos doze irmãos. Dois deles, infelizmente, não cheguei a conhecer, pois morreram ainda crianças, nos seringais onde a família viveu. Na Ilha dos Mutuns, meu pai fundou uma pequena escola primária, que funcionava praticamente como uma extensão da nossa própria casa. Essa iniciativa revela muito do homem que ele era. Mesmo vivendo em uma região distante, onde as dificuldades eram muitas e o acesso à educação era limitado, meu pai compreendia que o conhecimento poderia mudar o destino dos filhos e da comunidade. A escola, naquele ambiente simples da ilha, representava uma porta aberta para um futuro que parecia distante.

Meu pai foi seringueiro, agricultor e comerciante. Teve um box no antigo Mercado Municipal de Porto Velho, onde vendia frutas e verduras, até que o mercado foi destruído por um incêndio. Mais tarde, tornou-se proprietário do Box 21 da Feira Modelo, onde construiu uma clientela formada por trabalhadores, moradores da cidade e também por importantes figuras da política do então Território Federal de Rondônia. Foi ainda presidente da Cooperativa de Agricultores de Porto Velho, atividade que ampliou sua participação na vida econômica e social da cidade. Tenho uma lembrança muito particular daquele período: foi na sede da cooperativa que vi e falei pela primeira vez ao telefone. Para uma criança, aquilo parecia extraordinário; hoje, percebo que aquela experiência fazia parte de um mundo que meu pai estava ajudando a apresentar aos filhos.

Mas existe uma decisão de meu pai que marcou profundamente minha vida e talvez seja a melhor demonstração do amor que dedicava à família. Ele decidiu deixar o interior, o beiradão e a Ilha dos Mutuns para morar em Porto Velho porque queria que seus filhos estudassem. Não buscava apenas mudar de endereço; queria mudar as possibilidades de nossa vida. Eu tinha apenas quatro anos quando chegamos à cidade, e ainda guardo uma lembrança muito viva daquele período. Certa tarde de domingo, meu pai pediu que minha mãe me vestisse e me levou para conhecer seu amigo, Dom João Batista Costa, então bispo de Porto Velho, a quem conhecera ainda nos tempos do beiradão.

Dom João Batista Costa nos recebeu e me mostrou a Catedral Sagrado Coração de Jesus. Enquanto caminhávamos pelo templo, ele me explicava os quadros, os vitrais e as pinturas, procurando fazer com que aquela criança compreendesse o significado do que estava vendo. Eu era muito pequeno para entender toda a importância daquele momento, mas a lembrança ficou guardada em minha memória. Hoje, olhando para aquele episódio com os olhos de adulto, percebo que meu pai estava, de certa forma, me apresentando a um mundo novo. Ele vinha da floresta, mas queria que os filhos conhecessem outros horizontes; havia vivido nos seringais, mas queria que nós tivéssemos acesso à educação; conhecia profundamente as dificuldades da vida, mas acreditava que era possível construir um caminho diferente para seus filhos.

Meu pai não era um homem de grandes demonstrações de afeto. Era reservado e pouco dado a manifestações carinhosas, mas compensava essa característica com um cuidado permanente com a família. Seu amor aparecia no trabalho, na responsabilidade, na preocupação com os filhos e na maneira rigorosa como nos ensinava a enfrentar a vida. Uma de suas maiores lições ficou gravada em mim: respeitar o próximo é fundamental. Não era apenas uma frase; era um princípio que orientava sua maneira de viver e que ele procurava transmitir aos filhos por meio do exemplo.

Quando penso na trajetória de Zeferino Rabelo dos Santos, vejo um homem que atravessou diferentes mundos da Amazônia. Nasceu entre rios, viveu a realidade dos seringais, conheceu profundamente a vida do interior, tornou-se agricultor, comerciante e cooperativista e, posteriormente, estabeleceu-se em Porto Velho. Sua história acompanha, de certa maneira, as transformações de uma geração amazônica que deixou os seringais e as comunidades ribeirinhas em busca de novas oportunidades na cidade. Mas, acima de todas essas experiências, estava a condição de pai, que foi a dimensão mais importante de sua vida para mim e para meus irmãos.

Hoje compreendo que a maior riqueza que meu pai deixou para os filhos não foi material. Foi a educação que procurou proporcionar, foram os valores que ensinou e, sobretudo, a disposição para enfrentar as dificuldades sem abandonar a responsabilidade. Ele conhecia a dureza da vida, mas não se entregava a ela. Quando percebeu que os filhos precisavam de novas oportunidades, teve a coragem de deixar para trás o mundo que conhecia e começar novamente em Porto Velho. Essa decisão mudou nossas vidas e abriu caminhos que provavelmente seriam muito mais difíceis se tivéssemos permanecido no interior.

Por isso, quando recordo meu pai, não consigo separá-lo das águas do Madeira, da floresta, dos seringais, da Ilha dos Mutuns e da cidade de Porto Velho. Esses lugares fazem parte de sua história e também da minha. Foi nesse universo que ele construiu sua vida e foi a partir dele que procurou construir a nossa. Seu percurso foi marcado pelo trabalho, pela responsabilidade e pela vontade de oferecer aos filhos aquilo que ele próprio não teve em abundância: oportunidades de estudo, conhecimento e novos horizontes.

Zeferino Rabelo dos Santos foi o homem mais importante da minha vida. Essa afirmação não nasce apenas da condição de ser meu pai, mas do reconhecimento de tudo aquilo que ele representou em minha formação. Foi ele quem me ensinou, pelo exemplo, que a dignidade está no trabalho, que a convivência exige respeito. Foi ele também quem, ao deixar a Ilha dos Mutuns para trazer os filhos para Porto Velho, mostrou que o amor paterno muitas vezes não está nas palavras, mas nas decisões difíceis que tomamos pensando no futuro daqueles que amamos.

Meu pai veio dos rios e da floresta, atravessou os caminhos dos seringais, construiu sua vida com trabalho e coragem e deixou aos filhos uma herança que o tempo não consegue apagar. Hoje, quando olho para minha própria trajetória, reconheço que muitos dos caminhos que percorri começaram naquela decisão de um homem que queria que seus filhos estudassem. E é por isso que, onde quer que esteja, meu pai continua presente em mim: na memória, nos valores que carrego, na maneira como compreendo a vida e, sobretudo, na certeza de que parte do que sou nasceu da força, do trabalho e do amor silencioso de Zeferino Rabelo dos Santos, meu pai.

POESIAS QUE MARCARAM

Este canto da coluna é reservado para o cumprimento da minha obrigação com a poesia, que é na minha vida um sacerdócio. Aqui relembrarei poesias que marcaram nossa existência.

Aqui morava um rei

Aqui morava um rei

Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bordão,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensanguentado.

Ariano Suassuna

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