Abunã: A vila da borracha, dos trilhos e das fronteiras

Abunã guarda uma história marcada pelo ciclo da borracha, pela Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, pelo comércio regional e pela ocupação da fronteira e o IPHAN não olha pelo abandono dessa história

Há lugares na Amazônia que parecem pequenos quando vistos no mapa, mas se tornam enormes quando observados pela história. Abunã é um desses lugares. Hoje distrito de Porto Velho, a localidade possui uma trajetória diretamente ligada aos grandes processos econômicos e territoriais que contribuíram para a formação de Rondônia: o ciclo da borracha, os seringais, a navegação dos rios, a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, o comércio regional, a fronteira com a Bolívia e, posteriormente, a integração rodoviária com o Acre.

Muito antes da chegada dos trilhos, a região já estava integrada à dinâmica dos rios e da floresta. O rio Abunã, que dá nome à localidade e participa da fronteira entre Brasil e Bolívia, transformou a região em importante espaço de circulação de pessoas, mercadorias e informações. A fronteira não era apenas uma linha geográfica, mas uma área de contato entre diferentes territórios e economias.

Foi, entretanto, o ciclo da borracha que provocou uma das maiores transformações da Amazônia Ocidental. Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a valorização internacional do látex levou milhares de pessoas para os seringais. O vale do Madeira e seus afluentes passaram a integrar uma extensa rede de seringais, barracões, casas comerciais e portos.

A riqueza produzida pela borracha tinha como base o trabalho dos seringueiros, que enfrentavam a floresta em condições extremamente difíceis. Ao mesmo tempo em que o ciclo gomífero gerava riqueza e atraía comerciantes e investidores, também produzia relações de dependência e endividamento por meio do sistema de aviamento. A história de Abunã precisa, portanto, lembrar tanto a prosperidade daquele período quanto os trabalhadores que sustentaram a economia extrativista.

A grande transformação veio com a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Construída entre 1907 e 1912, com aproximadamente 366 quilômetros entre Porto Velho e Guajará-Mirim, a ferrovia estava relacionada à economia da borracha, às relações Brasil-Bolívia e às obrigações decorrentes do Tratado de Petrópolis. O IPHAN reconhece a Madeira-Mamoré como patrimônio fundamental para compreender a integração territorial, a consolidação das fronteiras e a história econômica da Amazônia Ocidental.

Abunã ganhou importância extraordinária nesse novo cenário. A estação ferroviária colocou a localidade na rota dos trens que ligavam Porto Velho a Guajará-Mirim. A ferrovia trouxe passageiros, trabalhadores, correspondências, alimentos, ferramentas, tecidos, medicamentos e outros produtos, ao mesmo tempo em que permitia o escoamento da produção dos seringais e de outros produtos da floresta.

Foi nesse período que Abunã conheceu seu apogeu. A localidade desenvolveu um comércio ativo e tornou-se importante ponto de circulação regional. Não era apenas uma estação onde o trem parava. Era uma comunidade viva, com comerciantes, trabalhadores, famílias, instituições e intensa movimentação. O trem representava a ligação de Abunã com o mundo exterior.

A própria existência de instituições sociais organizadas nas primeiras décadas do século XX demonstra a importância que a comunidade havia adquirido. Abunã possuía vida comercial e social muito mais intensa do que sua dimensão atual pode sugerir.

A história da ferrovia, entretanto, possui uma grande contradição. A Madeira-Mamoré foi construída em grande medida em função da importância da borracha, mas, quando ficou pronta, em 1912, o primeiro grande ciclo gomífero amazônico já começava a entrar em declínio diante da concorrência da produção asiática. Muitos seringais perderam importância e a economia regional entrou em crise.

Abunã, porém, conseguiu sobreviver. Sua posição geográfica, o comércio e a ferrovia permitiram que a comunidade atravessasse o período de decadência. Durante a Segunda Guerra Mundial, com o chamado Segundo Ciclo da Borracha, a produção amazônica voltou a adquirir importância estratégica, e a Madeira-Mamoré recuperou parte de sua função econômica.

A história administrativa de Abunã também acompanha a formação de Rondônia. Com a criação do Território Federal do Guaporé, em 1943, a localidade passou a ser oficialmente denominada Presidente Marques. O nome Abunã, entretanto, permaneceu na tradição popular e voltou a ser oficialmente adotado em 1945. Em 1956, o Território Federal do Guaporé passou a se chamar Território Federal de Rondônia.

Com a expansão das rodovias, a Madeira-Mamoré perdeu progressivamente sua importância. A BR-364 passou a exercer papel fundamental na integração territorial e Abunã, mais uma vez, manteve sua posição estratégica como ponto de ligação entre Porto Velho, o Acre e outras áreas da Amazônia.

A ferrovia chegou ao fim em 1972. O apito das locomotivas desapareceu, o movimento da estação diminuiu e parte do patrimônio ferroviário entrou em processo de abandono. Mas o fim do trem não significou o fim da história de Abunã. A antiga estação e os vestígios da ferrovia permanecem como documentos materiais de uma época decisiva para a formação de Rondônia.

É justamente nesse ponto que surge uma das maiores preocupações atuais: a preservação do patrimônio histórico da Madeira-Mamoré. Um patrimônio reconhecido e protegido pelo IPHAN não pode ser tratado como simples conjunto de prédios antigos. Ele representa a memória dos ferroviários, seringueiros, comerciantes, maquinistas, carregadores, trabalhadores e famílias que ajudaram a construir a região.

O abandono e a deterioração desse patrimônio constituem uma vergonha para todos os responsáveis por sua preservação. Tombamento não é conservação. Placa não é preservação. Patrimônio histórico precisa de manutenção permanente, fiscalização, recursos, pesquisa, restauração e participação da comunidade.

E a ameaça não está apenas nas ruínas da ferrovia. O Rio Madeira, elemento fundamental da história econômica e territorial da região, também sofre com a pressão do garimpo ilegal. Operações de fiscalização têm encontrado embarcações e estruturas utilizadas na extração clandestina de ouro em diferentes trechos do rio.

O contraste é dramático: o mesmo rio que ajudou a construir a história de Porto Velho e deu sentido à própria Madeira-Mamoré é hoje pressionado por atividades predatórias que retiram riquezas de seu leito e deixam impactos ambientais.

O jornalista fotográfico Rosinaldo Machado, o profissional que registrou com sua lente precisa, o nascimento e o desenvolvimento do estado de Rondônia, esteve recentemente em Abunã e registrou brilhantemente o abandono dos objetos e prédios da Estrada de Ferro Madeira Mamoré em Abunã. Suas fotos ilustram essa matéria.

Preservar Abunã, portanto, significa proteger duas dimensões inseparáveis de sua história: o patrimônio cultural e o patrimônio ambiental. Não faz sentido restaurar uma estação histórica enquanto o rio e a paisagem que deram origem àquela história são degradados.

Abunã representa o encontro de diferentes ciclos da Amazônia. Primeiro vieram o rio e a floresta; depois, a borracha e os seringais; em seguida, a ferrovia, o comércio e a expansão da comunidade. Vieram o Território Federal do Guaporé, Rondônia e as rodovias. Em todos esses momentos, sua posição estratégica fez da localidade um importante ponto de passagem, circulação e integração.

Por isso, é um erro olhar para Abunã apenas como um distrito distante de Porto Velho. Sua dimensão histórica é muito maior do que sua condição administrativa atual. Abunã foi um dos núcleos que ajudaram a construir a economia, a ocupação e a identidade da Amazônia Ocidental.

A antiga estação ferroviária é uma página material dessa história. Ela lembra o tempo em que o trem chegava trazendo passageiros e mercadorias, enquanto a floresta fornecia borracha, castanha, madeira e outros produtos. Lembra os trabalhadores que enfrentaram a mata e as famílias que construíram suas vidas naquele lugar

Abunã não foi apenas uma estação no caminho do trem. Foi um dos lugares onde a história de Rondônia parou para respirar.

Preservar Abunã é preservar a memória da Madeira-Mamoré, dos seringais, dos trabalhadores, do comércio, da fronteira e do Rio Madeira. É reconhecer que a história de uma comunidade não pode ser abandonada junto com seus prédios antigos.

A história de Abunã ainda precisa ser contada, pesquisada e, sobretudo, preservada. Porque preservar Abunã é preservar uma parte da memória de Rondônia — e da própria história do Brasil na Amazônia.

Jornalista Adaides Batista dos Santos – DADÁ

Fotos: Rosinaldo Machado 

 

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