DIVERSIDADE CULTURAL E LINGUAGEM – “Beradero” e “Amazônida” não são títulos, são marcas identitárias

NAIR GURGEL

Ser beiradeiro e/ou amazônida é como um segredo que os rios cochicham e, depois disso, já era: você nunca mais anda no mesmo compasso.  

A palavra “beiradeiro” é formada pelo processo de derivação sufixal. Sua estrutura morfológica pode ser analisada a partir dos seguintes elementos: radical beir- (de”beira”) + o sufixo -ada = “beirada” e, subsequentemente, o sufixo -eiro = “beiradeiro”.  

Tradicionalmente, o termo “beiradeiro” significava um pequeno negociante que seguia as turmas de operários das linhas férreas em construção para vender seus produtos. O certo é que a formação da palavra também reflete a realidade geográfica e social das comunidades ribeirinhas, destacando sua relação intrínseca com as margens dos rios. Verdadeiras beiradas ou “beradão” como chamavam antigamente. 

Em Porto Velho/RO, a palavra “beradero” (forma oralizada) já teve cunho pejorativo, quando as pessoas começaram a utilizar o termo para se referir a pessoas interioranas, sem ou com pouca escolaridade etc. Com o passar do tempo e como toda língua é dinâmica, isso é, muda no tempo e varia no espaço, o termo passou a ser assumido por artistas e estudantes da cidade também, cuja finalidade era o empoderamento. Uma força política que deu certo e, hoje, todos sentem orgulho de ser “beradero” ou simplesmente, “béra”.  

Atualmente, qualquer pessoa que se identifica com a cultura ribeirinha pode se autointitular “beradero”. Como eu, por exemplo. É uma questão de pertencimento. 

Exemplo de “bera” raiz é o BerAkillaz Bera um artista plástico, músico, cantor, escritor. Pinta camisetas “Estilobera”, criou a Revista BERAzine, pertence ao grupo “Quilomboclada” – uma Banda musical Afro Indígena que toca Música Popular Beradera (MPBÉRA). “Usa a contemporaneidade sociolinguística periférica como uma baladeira semiótica apontada pro futuro”, me disse o próprio beradero. É craque em neologismos: beradage(m), beradez, beradelia, beraderou e tantos outros.  

Já o termo “amazônida” é daqueles que desobedecem a gramáticas normativas, pois não são só palavras – são histórias. Cada uma carrega um lampejo de quem somos. E quem somos? Um povo acostumado às grandezas: à chuva que não pinga, desaba; ao rio que não corre, sustenta; à claridade que explode no meio da tarde como se Deus tivesse acendido todas as lâmpadas de uma vez. Aqui a vida não é pequena – nem pede desculpa por isso. 

Somos também conviventes íntimos do real e do fantástico. Não é raro topar com alguém que viu o Boto de chapéu, namorando no festejo da comunidade ribeirinha ou que ouviu a Matintaperera assoviando, pedindo fumo. Na Amazônia, os encantados não se escondem – apenas esperam a hora certa de aparecer. E, às vezes, essa hora é justamente quando a gente menos espera. 

As pessoas confundem Rondônia com Roraima simplesmente porque não se importam com o Norte do Brasil. São levadas a confundir dois estados da Região Norte apenas pela sonoridade das sílabas iniciais. E por que não confundem Pará com Paraná, Rio Grande do Norte com Rio Grande do Sul. Será que faltou aula de Geografia? Confundem, ainda, Amazonas com Amazônia, Amazônica(o) e Amazônida.  

Vamos entender as diferenças? 

Amazonas pode ser o Estado cuja capital é Manaus ou o Rio Amazonas. A origem vem do grego: “mazos” = “mama” e “a” = “não”. Juntas, as duas partes [a+mazon = amazon] “mulheres sem seios”. Contam que elas arrancavam o seio direito para segurar melhor o arco”1.Na versão da Grécia Antiga, havia um lugar (Capadócia) onde só existiam mulheres. Elas eram guerreiras e, armadas de arco e flecha, enfrentavam os inimigos montadas em cavalos. Conhecidas como “Icamiabas” (do tupi = “peito partido”) ou “mulheres sem marido”, são descritas como uma sociedade matriarcal e independente que vivia sem homens, defendendo seu território com bravura e habilidade.  

Em 1542, o explorador espanhol Francisco Orellana, vindo do Peru por via fluvial, esteve no Norte do Brasil. Quando chegou perto de um rio muito grande, segundo ele, foi atacado por mulheres guerreiras montadas a cavalo. Lembrou-se, então, das amazonas gregas e é por causa deste equívoco que o Rio e o Estado possuem o nome Amazonas. Por isso, também, Amazona (singular) refere-se à mulher guerreira ou que monta a cavalo.  

Para o termo Amazônia, existem 2 classificações: a) A Amazônia Continental que se estende por nove países: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa (departamento ultramarino da França), Peru, Suriname e Venezuela; b) A Amazônia Legal que é uma área político-administrativa brasileira, criada para planejamento e desenvolvimento, que abrange 9 estados (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e a porção do Maranhão a oeste do meridiano de 44°W), cobrindo 60% do território nacional (mais de 5 milhões de km²). 

A palavra Amazônica(o) refere-se ao que é relativo ou pertencente à região da Amazônia ou ao Amazonas, rio ou estado do Amazonas.  

Já a palavra Amazônida possui o sentido de carregar o coração em forma de geografia. É reconhecer a própria identidade como quem reconhece uma árvore irmã: pelo som, pela sombra, pelo jeito de existir. Exige resistência: resistir a quem acha que somos só cenário; resistir a quem pensa que a Amazônia é uma metáfora, quando, na verdade, é território pulsante; resistir ao olhar estrangeiro que quer nos explicar sem nunca ter sentido cheiro de chuva, batendo na seringueira ou ouvido o estrondo de um trovão atravessando o Madeira. 

E se alguém me pergunta, afinal, o que é ser amazônida, respondo assim: É remar contra discursos fáceis, contra a simplificação da mídia, contra quem insiste em ver a Amazônia como “pulmão do mundo”. Ser amazônida é ter coragem de afirmar que não somos cenário, somos povo.  

A frase “Não se nasce amazônida, torna-se” é uma adaptação da filósofa feminista francesa Simone de Beauvoir, em sua obra O Segundo Sexo (1949): “Não se nasce mulher, torna-se”. No contexto amazônico, a adaptação da frase é frequentemente utilizada para enfatizar que a identidade amazônida vai além do local de nascimento, sendo construída por meio da vivência, do respeito à cultura e da relação com o território e suas tradições.  

Portanto, é relevante frisar que a amazoneidade não é uma identidade única, mas uma construção híbrida e plural.  

Eu sei que fui prolixa, minuciosa e até um tanto “bairrista”. É que sou as duas coisas: “beradera” e amazônida. 

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