DIVERSIDADE CULTURAL E LINGUAGEM – As vozes polifônicas do verbo “dar”

NAIR GURGEL

As palavras têm essa mania antiga de carregar mais de uma voz dentro delas. A gente pensa que está dizendo uma coisa, mas a língua – sabida, dinâmica – sempre abre uma porta lateral e deixa outra fala escapar.  

Assim nascem os duplos sentidos, as ambiguidades, as ironias: enquanto o discurso caminha pela estrada oficial, o sentido figurado pega a canoa e desce o rio por conta própria.  

Fulano(a) deu um show. Viram como é? Alguns podem entender que dar um show é apresentar um espetáculo, enquanto que outros a entendem negativamente: comportar-se de maneira escandalosa. 

Neste texto, a pretensão é dar com a língua nos dentes a respeito de polifonia, intertextualidade, dialogismo e sentido figurado. Convido os leitores para ler comigo os muitos sentidos do verbo “dar”. 

Gostaria de dar com as línguas nos dentes, falando sobre políticos e politicagens, mas prefiro dar de ombros, demonstrar indiferença ou não me importar com isso. Sem problemas. Não quero dar dor de cabeça e nem complicar a vida de ninguém.  

A importância de um texto com sentido figurado está em seu caráter artístico, criativo e imaginativo, capaz de transportar quem o lê para outras realidades ou mesmo despertar a atenção para detalhes ocultos na realidade cotidiana. 

Dado que a língua/linguagem é polifônica, porque nasce assim: atravessada por rios que correm e contam histórias, corredeiras de culturas, mudanças, diferenças e pessoas, não adianta dar um chega pra lá, rejeitando as muitas vozes implícitas em um texto. Sempre podemos dar um jeito, arrumar uma solução com criatividade, sempre driblando a arbitrariedade e a convenção que também lhes são características. 

Cada expressão que usamos, lemos ou ouvimos é um pequeno teatro onde o literal entra em cena de bota e chapéu, mas o figurado aparece pela coxia com um sorriso maroto, pronto para bagunçar o roteiro. E é nesse encontro – nesse deslizamento gostoso – que mora a graça da nossa fala. Nossa identidade maior: o sotaque, a variação regional, o status social e até o grau de escolaridade, a idade e o gênero. 

Escrever sobre essas vozes é ouvir o que a língua cochicha nas brechas: o que se diz, o que não se diz e o que escapa sem pedir licença. Ler no vão do discurso, nas entrelinhas, nas filigramas. Ler o não dito. Porque palavra boa é aquela que carrega duas verdades ao mesmo tempo – a que se vê e a que se pressente.  

Vocês podem estar se perguntando porque eu escolhi o verbo “dar” para falar a respeito de múltiplas vozes, já que existem tantos outros, Simples: é só porque ele dá pano para a manga. Já escrevi bastante e ainda tenho muita coisa a dizer. 

Se vamos ao dicionário, temos lá: Verbo Dar – Infinitivo: “DAR“, usada após outro verbo (locução verbal), após preposições ou com sujeito indeterminado. Exemplo: Eu vou dar um presente 

Depois, começam as exceções: DAR é um verbo copulativo, também chamado de verbo de ligação, não expressa uma ação, mas um estado ou qualidade do sujeito. Ele conecta o sujeito a um termo chamado predicativo do sujeito, que atribui uma característica a ele: Ela deu uma boa profissional.  

E eu, dou um doce para quem souber quais são as principais características do verbo DAR. A primeira nós já vimos: a Polissemia. Além do sentido de transferência (entregar, oferecer), pode significar: produzir, causar, conceder, vender, pagar, entre outros. Exemplos: O pé de manga dá frutos, A espera me deu o nervoso, O professor dá aula.  

É impossível descrever todos os sentidos do verbo dar; precisaríamos dar nó em pingo d’águaser muito habilidoso; fazer o impossível parecer fácil. Se fizermos um levantamento exaustivo, encontraremos mais de 50 ocorrências do verbo “dar” e suas múltiplas vozes. Ainda é possível:  

Dar a vida pelos filhos;  

Dar extrema-unção;  

Dar uma demão na parede;  

Dar um abraço;  

Dar vontade;  

Dar fome;  

Dar esperança;  

Dar ordens;  

Dar uma festa;  

Dar cursos;  

Dar parabéns;  

Dar para quem quiser.  

Entenderam? 

A segunda característica é a Irregularidade: O verbo “dar” é classificado como irregular por apresentar alterações no radical e/ou nas terminações em algumas conjugações. Verbos irregulares são aqueles que não seguem modelos de conjugação. E tem o caso de o verbo DAR ser Pronominal. Acho que nos daríamos bem aqui. 

Finalizamos com os usos da Verbo DAR na Informalidade (expressões populares), enquanto característica. Já usei bastante ao longo do texto, mas, se essa história tem tudo para dar errado, é porque alguém que ficou de me ajudar, no último momento, deu para trás. Quem dera eu soubesse dar um jeito de aprender todas essas inutilidades. Coisas de quem gosta mais de dar do que receber. 

A partir das pistas dadas no texto, sugiro que escrevam, usando os diferentes sentidos de uma expressão. Garanto que não há perigo de dar com os burros n’água. Podem dar o braço a torcer e reconhecer que escrever é um bom exercício.  

É sempre bom dar a volta por cima e superar as dificuldades com elegância de quem rema contra a maré e vence. 

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