DIVERSIDADE CULTURAL E LINGUAGEM – NADA NA LÍNGUA É POR ACASO – Nem as placas

NAIR GURGEL

Em uma noite qualquer, dessas em que a cidade parece falar mais alto que as pessoas, deparei-me com uma placa curiosa no centro de Porto Velho: “SAÍDA DE ALTOS”. Confesso: parei.  

Não por falta de rumo, mas por excesso de sentidos. 

Seria uma saída exclusiva para pessoas altas? Um clube secreto de gigantes urbanos? Ou, quem sabe, uma grafia caprichosa de autos, como quem ainda acredita que o carro merece um certo respeito ortográfico? 

Nada disso. Ali, naquela esquina de música, riso e copos reincidentes, “altos” não era altura, era estado. Era o sujeito que já passou do ponto, que flutua levemente acima da sobriedade e precisa, com urgência e alguma dignidade, encontrar a saída. 

Pronto: a placa fazia sentido. E mais do que sentido, fazia graça. 

É curioso como insistimos em chamar de “erro” aquilo que, muitas vezes, é apenas a língua exercitando sua liberdade. Como se escrever fosse seguir um trilho rígido, quando, na verdade, é caminhar por uma estrada cheia de desvios criativos. 

Lembro-me, então, de outras placas, essas verdadeiras obras de arte involuntária, que encontramos à beira das estradas. Uma delas anunciava, em letras generosas: “VENDE SE CAUDO DE CANA-DOCE”. 

Durante muito tempo, li como todo mundo lê: com estranhamento e um leve sorriso. Até que alguém, em um gesto que só posso chamar de ousadia bakhtiniana, sugeriu outra leitura. Talvez não fosse “caudo-de-cana doce”, mas “caudo de cana-doce”. E, de repente, a placa deixou de ser erro para se tornar enigma. 

Se fosse verdade, Mikhail Bakhtin teria aceitado o convite com entusiasmo: poucas coisas são tão interessantes quanto um texto que nos obriga a negociar sentidos. 

No fundo, essas placas nos lembram de algo que a gramática nem sempre gosta de admitir: a língua não é uma coleção de acertos, é um campo de possibilidades. 

A ortografia, coitada, tenta organizar esse território, mas falha. E falha bonito. Porque entre sons e letras há uma relação caprichosa, quase afetiva, uma espécie de casamento instável, ora monogâmico, ora escancaradamente polígamo. 

As crianças sabem disso intuitivamente. Os adultos, quando se aventuram na escrita, também. Testam, erram, acertam, reinventam. Escrever é, antes de tudo, levantar hipóteses sobre o mundo. 

E é por isso que essas placas nos encantam. Elas não são sinais de ignorância. São sinais de tentativa. De urgência. De gente que precisa dizer alguma coisa e diz do jeito que pode, do jeito que sabe, do jeito que a língua permite naquele instante. 

No fim das contas, a maior lição está ali, pintada à mão, à margem de uma estrada ou à porta de um bar: A língua não erra, ela experimenta. E, às vezes, no meio da experiência, ainda nos faz rir. 

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