
NAIR GURGEL
O bom de brincar com as palavras é que elas possibilitam a interação com a diversidade e ainda proporcionam o contato com a pesquisa e o conhecimento.
Certa vez, provoquei os internautas da seguinte forma: “Em Porto Velho/Rondônia, se você está cansado, está “só o pó da rabiola”. Você, de Rondônia ou de outros estados, conhece formas diferentes de expressar o fenômeno do cansaço? Para minha surpresa, muitas pessoas contribuíram.
Se há algo verdadeiramente democrático neste país continental é o cansaço. Ele vem de mansinho, desfila nos nossos músculos, esfola nossas certezas e, quando percebemos… já estamos desfiados como rede velha. É como se a língua fosse um rio, enchendo e secando conforme a paisagem, levando no lombo um punhado de metáforas que só fazem sentido naquele pedaço de chão.
E eu, que observo palavras como quem observa pássaros, fico encantada com essa cartografia da exaustão. O cansaço brasileiro é tão criativo que merecia ser tombado pelo IPHAN – patrimônio imaterial da labuta diária. Quando alguém diz “tô só o pó da rabiola”, não está apenas cansado; está declamando um poema involuntário, desses que nascem no corpo antes de nascerem na boca.
Para entender o que é “estar só o pó da rabiola”, é preciso conhecer a brincadeira, já quase ultrapassada, de soltar pipa, (papagaio, pandorga, arraia, pepeta) dentre outros termos, sem esquecer da “curica”.
Então, vamos ver a origem da expressão: uma pipa é construída de talas ou varetas e papel de seda. É um brinquedo que voa baseado na oposição entre a força do vento e a da linha segurada pelo operador. Conforme o modelo, pode contar com uma rabiola, que é um adereço preso na parte inferior para proporcionar estabilidade, aerodinâmica e equilíbrio. Antes de aparecer a linha chilena, usava-se o “cerol” feito com uma mistura de cola e vidro triturado, usado nas linhas dos papagaios com o objetivo de “queidar” os outros ou proteger-se deles, podendo, inclusive, cortar metal e fiações elétricas. A cola serve como aglomerante, enquanto o pó de vidro ou ferro serve como abrasivo. O resultado é uma linha extremamente cortante, que pode trazer riscos (inclusive de morte) para quem aplica e para quem usa a linha com cerol. Não é à toa que tanto o cerol quanto a linha chilena representam perigo para toda a população e coloca em risco pedestres, ciclistas e motociclistas que circulam pela cidade, além da própria pessoa que está utilizando. O uso desses materiais ou qualquer outro produto cortante na prática de empinar pipas é considerado crime.
Entenderam, agora, o sentido da expressão? Quando eu estou “só o pó da rabiola”, ou seja, amassado, desfeito, quebrado, moído, triturado, eu estou cansado.
No Brasil inteiro circulam algumas expressões semelhantes como: Tô morto, Tô acabado, Tô moído, Tô esbagaçado, Tô caindo aos pedaços. Quase um hino nacional ao esgotamento – cada um a seu modo, com sabor regional. Porém, o mais bonito – ou o mais engraçado, dependendo da fadiga – é que cada canto do Brasil inventou um jeito próprio de desmaiar sem cair.
Vamos às contribuições recebidas, separadas por Região:
Norte: Tô no toco, Tô só a rapa, Tô só o farelo…
Nordeste: Tô arriado, Tô quebrado que nem arroz de terceira, Tô só o pito…
Centro-Oeste: Tô mais cansado que boi de carro, Tô só a poeira da estrada…
Sudeste: Tô bagaçado, Tô detonadão, Tô mortaço, Tô só o fiapin …
Sul: Tô aplastado, Tô chairado, Tô só a capa da gaita…
Além das contribuições do Estado de Rondônia, incluídas na Região Norte, destaco o “Portovelhês”, por ter vindo em maior número, mostrando a multiculturalidade do Estado, fruto de migrações ocorridas ao longo do seu processo de formação: Tô entregue às baratas, Tô igual arroz de quinta, Tô morgada, Tô pregada, Tô só as tiras, Tô só o pó da farofa…
E seguimos – cansados, sim, mas inventivos. Porque o brasileiro é o único ser no planeta que consegue transformar fadiga em folclore linguístico. A variação da linguagem é prova de identidade, na liberdade de expressão. Sem preconceitos, podemos curtir a variação linguística, respeitando as diferentes formas de se expressar.


