HOMEOPATIA – Verdades e Mitos

Por Zola Xavier da Silveira

Ao ensejo das comemorações do dia Nacional da Homeopatia em 21 de novembro, tive a satisfação de entrevistar a Dra Janete Celano Valladão, médica, homeopata, carioca, formada em 1979, que traz a sua experiência profissional para nos elucidar sobre aspectos relevantes da Homeopatia, especialidade médica criada há 229 anos por Christian Friedrich Samuel Hahnemann, e tirar algumas dúvidas, muito comuns, sobre essa forma de tratamento, que a cada dia vem conquistando mais adeptos em nosso meio.
Zola Xavier- Dra Janete, fale-nos sobre o que é Homeopatia.
Janete Celano Valladão- O termo homeopatia vem do grego “homoios-pathos” (sofrimento semelhante). É a doutrina que prega a cura de doenças pela administração de substâncias que, aplicadas num indivíduo são, geram sofrimento semelhante à doença apresentada no paciente. Ela utiliza o princípio da “cura pelo semelhante” para tratar e prevenir doenças. É a conhecida Lei de cura da Homeopatia: “Similia Similibus Curantur” – O Semelhante se cura com o Semelhante.

É uma forma diferente de cuidar da saúde. É oportuno que se diga que a Homeopatia não é apenas um método terapêutico, uma especialidade; é acima de tudo um método Filosófico para a Medicina. O homeopata entende que existe uma energia que mantém o nosso corpo, nossa mente e nossas emoções em bom funcionamento. Quando essa energia está desequilibrada, nós ficamos doentes. Então, se não nos sentimos bem ou se estamos doentes, é porque a energia que mantém o nosso organismo sadio está precisando ser cuidada.


Dr Samuel Hahnemann

ZX- Dra, a srª poderia contar um pouco sobre como surgiu a Homeopatia?
JCV- Bem, ela foi criada pelo médico alemão Christian Friedrich Samuel Hahnemann, nascido em 10 de abril de 1755, na Alemanha. Inclusive, nessa data se comemora o Dia Mundial da Homeopatia. Hahnemann formou-se em Medicina em 1779. A medicina naquela época era muito agressiva e precária. O Dr. Cullen, médico contemporâneo de Hahnemann, analisando os efeitos da China officinalis (Quina ou Quinina) na febre intermitente, apresentava muitas teorias confusas para explicar a eficácia daquela substância na doença.
Descontente com isso e para tentar clarear essas teorias e contradições, Hahnemann resolveu experimentar em si mesmo os efeitos da Quina, ou seja, testar a droga numa pessoa sadia e não em quem se achasse com o quadro da doença. Para isso, ele tomou durante vários dias fortes doses de Quinina, e grande foi a sua surpresa quando sentiu logo os sintomas de um estado “febril intermitente” idêntico às febres que, precisamente, são curadas pela Quinina. Essa observação levou-o a uma explicação clara: um medicamento pode causar no homem são, sinais e sintomas semelhantes aos da doença e, precisamente, por isso desenvolvia uma cura tão rápida e eficiente.

Estava, assim, praticamente, comprovada a Lei dos Semelhantes, que já havia sido enunciada por Hipócrates no século IV a.C. Estava também aberto o caminho para a formulação da Homeopatia, o que aconteceu após as sucessivas experimentações e a dinamização progressiva das substâncias. Assim, em 1796, Hahnemann cria a Homeopatia, mas somente em 1810, ele publica sua principal obra, o livro Organon da Arte de Curar, que possui toda a base da Homeopatia, experimentada por ele próprio.

ZX- Porque se comemora o dia Nacional da Homeopatia em 21 de novembro?
JCV- Em homenagem a Jules Benoit Müre que chegou ao Brasil, no Rio de Janeiro, em 21 de novembro de 1840 e muito fez pela Homeopatia.

ZX- Conta um pouco dessa história, que é bem interessante.
JCV- O Dr. Benoit Müre era francês, formado em Medicina pela Escola de Montpellier e tinha um passado ligado à Homeopatia, pois foi curado de um processo pulmonar pelo Conde Dr. Sebastião Des Guidi, introdutor da Homeopatia na França e discípulo de Hahnemann. Então, Müre prometera, como gratidão à cura obtida, ser um “fiel propagador da Homeopatia”. Veio para o Rio de Janeiro, mas seguiu para Santa Catarina, onde foram instalados o “1° Instituto Homeopático” e a 1ª Escola Homeopática do Brasil. Depois, voltando para o Rio de Janeiro, ele e o Dr. Vicente José Lisboa fundaram o “Instituto Homeopático do Brasil”; isso em 10 de dezembro de 1843. Benoit Müre voltou à França, em 1848 e faleceu no dia 04 de março de 1858, com apenas 49 anos de idade.

ZX- Esse Instituto é o conhecido Instituto Hahnemanniano do Brasil?
JCV- Pode-se dizer que sim, porque o Instituto Homeopático do Brasil deu origem ao Instituto Hahnemanniano do Brasil-IHB, fundado em 2 de julho de 1859; atualmente funciona no Instituto Biomédico da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO, onde eu me formei em Medicina e onde é ministrado o curso de Pós-Graduação em Homeopatia. Ali, no IHB, eu cursei a especialização em Homeopatia durante 2 anos e, posteriormente, tive a satisfação de atuar como médica homeopata no Ambulatório que funciona, até hoje, prestando assistência médica de forma gratuita àqueles que o procuram.

Ambulatório de Homeopatia do Instituto Hahnemanniano do Brasil – Rio de Janeiro

Além disso, a UNIRIO disponibiliza para os seus alunos de graduação em Medicina a disciplina optativa de Homeopatia a partir do 3º ano curricular. Inclusive, no Hospital Escola Gafrée-Guinle da UNIRIO, funciona um Ambulatório exclusivamente voltado para a Homeopatia, contando com professores concursados nessa área. Outras Universidades do País também oferecem cursos regulares, como o Curso de Farmácia Homeopática na Universidade Federal Fluminense-RJ, dentre outras.

 


Hospital Gafrée-Guinle onde funciona o Departamento de Estudos Homeopáticos

ZX- Mas existe faculdade de Homeopatia?
JCV- Não. O médico homeopata tem a sua formação igual ao do médico alopata. Ele precisa cursar 6 anos numa Faculdade de Medicina. Depois de formado, tem que fazer 2 ou 3 anos de pós-graduação na especialidade de Homeopatia.

ZX- Qualquer pessoa pode receitar os remédios homeopáticos?
JCV- Não. No Brasil, medicamentos homeopáticos somente podem ser prescritos por médicos, veterinários e odontólogos e manipulados ou adquiridos em farmácias ou drogarias sob a responsabilidade do farmacêutico homeopata sendo vedada a prescrição e/ou manipulação de medicamentos homeopáticos por leigos.
ZX – A Srª sabe quantos médicos homeopatas temos no Brasil?
JCV – Estima-se que temos mais de 15.000 médicos e mais de 2.000 farmácias de Homeopatia. Acredita-se que existam cerca de 500 milhões de usuários em mais de 70 países, sendo 10 milhões só no Brasil.

ZX – Quais são as instituições que representam os profissionais da Homeopatia no Brasil?
JCV – Temos várias: a Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB), a Associação Brasileira de Farmacêuticos Homeopatas (ABFH), Associação Médica Veterinária Homeopática Brasileira (AMVHB) e a Associação Brasileira de Cirurgiões Dentistas Homeopatas (ABCDH), respondem pelos interesses de suas classes profissionais. A Associação Médica Homeopática Brasileira está ligada e representa o Brasil na LMHI – Liga Médica Homeopática Internacional. Outra importante referência que eu faço questão de mencionar é o Instituto François Lamasson, em Ribeirão Preto – SP, fundado em 1981, onde eu também tive a oportunidade de cursar uma Especialização. Todas essas instituições, periodicamente, promovem congressos e seminários, onde muitos pesquisadores homeopatas brasileiros têm apresentado seus trabalhos científicos. Isso é muito importante para estarmos sempre atualizados.

ZX- Há quem diga que o remédio de Homeopatia é “açúcar ou aguinha”. Como é isso?
JCV- É até compreensível que o leigo diga isso, porque o modo de preparo dos medicamentos homeopáticos é peculiar e só está oficialmente descrito na Farmacopeia Homeopática Brasileira. Existem normas sanitárias claras para o preparo em farmácias de manipulação e ainda tem a fiscalização da ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A Homeopatia utiliza doses mínimas, infinitesimais e a substância passa por um processo de dinamização que proporciona ao medicamento a capacidade de estimular, no organismo, a liberação da energia vital do indivíduo. Por isso, ao se analisar num laboratório, não se encontrará matéria, visto que a substância inicial se transformou em energia. Esse fenômeno é facilmente explicado pela química e pela física quântica. Mas requer um estudo longo e aprofundado.

ZX- Observei que a srª não usa a palavra remédio e, sim, medicamento. Há diferença?
JCV- Sim. O homeopata fala medicamento, porque, como está claro, remédio é para remediar alguma coisa. Já o medicamento é a substância que vai atuar no organismo no sentido da cura, estimulando a energia vital.

ZX- E há diferença entre Homeopatia e Fitoterapia?
JCV- É completamente diferente. Não há qualquer semelhança. Fitoterapia é aplicação de substâncias de origem vegetal como ervas, folhas, raízes, na forma de chá, planta moída, tintura, extrato líquido ou extrato seco. Usa-se o remédio de forma alopática. Não há impedimento para qualquer pessoa usar e/ou recomendar. Inclusive médicos receitam fitoterápicos, não importando se são Alopatas ou Homeopatas. Já a Homeopatia é uma Especialidade Médica e é aprendida em cursos de Pós-Graduação autorizados pelo Ministério da Educação, com carga horária e currículo mínimo a serem cumpridos. Diferente da Fitoterapia, os medicamentos homeopáticos vêm dos três reinos: animal, vegetal e mineral. A título de exemplo, Apis mel., da abelha, Pulsatilla n. da planta Pulsatilla pratensis, Calcarea carbônica da concha da ostra. Além disso, são preparados de forma diferente, com diluições e dinamizações, como eu já falei. Interessante, não é? É bom que se diga, também, que maior parte dos medicamentos homeopáticos de origem vegetal podem ser extraídos da flora brasileira, mas infelizmente, algumas matérias-primas ainda são importadas.

ZX- Mas o remédio homeopático provoca efeitos colaterais?
JCV- Não. Medicamentos homeopáticos são seguros. Um medicamento homeopático jamais intoxicará alguém, como num choque alérgico, por exemplo. Mas, se for mal utilizado, como na automedicação, alguém “copiar “a receita do vizinho que foi “boa para ele”, o efeito pode ser nenhum e pode até mesmo piorar o quadro, visto que o tratamento adequado está sendo retardado.Não podemos esquecer que o tratamento é individualizado. Porém, quando bem aplicado, pela sua preparação em doses mínimas, o medicamento é· totalmente inofensivo para o paciente e age estimulando, no organismo, a liberação da energia vital, que se traduz pela reação do próprio organismo contra a doença. Com isso, há um equilíbrio do indivíduo como um todo e não apenas o restabelecimento de um único órgão, pois a ação é no organismo todo.
Posso explicar melhor: Os medicamentos homeopáticos são preparados a partir de uma solução de álcool e água, as tinturas, e diluídos muitas vezes, até o ponto de não produzirem os efeitos colaterais.
Essa super diluição faz com que o medicamento seja tomado em pequenas doses, com uma frequência maior e por mais tempo que os medicamentos alopáticos. Daí a expressão popular “em doses homeopáticas”.

ZX- É como as vacinas?
JCV- Não. Embora a vacina também estimule a reação do organismo, ela não é produzida usando-se doses infinitesimais e nem sofrem dinamização. Por isso, pode causar efeitos colaterais e reações adversas, bem diferente do medicamento homeopático.

ZX- Uma outra dúvida comum é se a Homeopatia trata qualquer doença. É verdade?
JCV- Não. A Homeopatia tem limites, tanto quanto toda a Medicina. Além disso, a Homeopatia visa ao doente e, não, à doença, embora utilize os sintomas para identificar os medicamentos apropriados para um doente específico. Doenças incuráveis, são incuráveis para qualquer método terapêutico, mas em qualquer situação a Homeopatia pode trazer benefícios, pois evita intercorrências que possam prejudicar ainda mais a saúde do indivíduo, além de tratar alterações concomitantes. A Homeopatia cura, quando possível, mas ameniza o sofrimento, sempre.

ZX- Porque a consulta com Homeopata é considerada demorada?

JCV- Rsrs. Ela demora o tempo necessário para uma boa conversa, o que nós chamamos de anamnese. Ouvir o paciente é absolutamente necessário para uma boa avaliação e escolha dos medicamentos. Depois, é preciso examinar com cuidado todo o paciente e não apenas o órgão ou segmento que foi o motivo da queixa. O paciente é um indivíduo inteiro e não dividido em partes de um todo. Por isso, essa avaliação requer mais tempo que uma consulta com o médico alopata. Esse modelo fortalece a relação médico-paciente, que é um dos elementos fundamentais para o sucesso do tratamento e para a tão almejada humanização na atenção ao paciente.

ZX- Ouve-se dizer que para se tratar com Homeopatia, é preciso ter fé. É isso mesmo?
JCV- Olha, essa é uma questão muito séria. Eu costumo dizer que Homeopatia não é religião; é ciência. Não importa a crença,a Homeopatia sempre funciona. Mas, tanto no tratamento alopático, quanto no homeopático, ter fé não prejudica, pelo contrário…

ZX- Quando a pessoa se trata com Homeopatia, não pode tomar nenhum remédio de alopatia?
JCV- Vamos por partes. Quando a pessoa se trata com Homeopatia, ela não precisa tomar remédios alopáticos. Mas se, por ventura, ela não possa adquirir o medicamento alopático, ela pode lançar mão, de forma emergencial, dos remédios tradicionais, sim, porque de uma forma ou de outra, a pessoa precisa ser atendida. Eu penso que o bom senso deve sempre prevalecer.

ZX- Por que o tratamento com Homeopatia é mais lento que com Alopatia?
JCV- Isso é totalmente falso. O medicamento homeopático não tem efeito brusco, mas não significa que seja lento. Tudo vai depender da reação de cada organismo e do tempo em que a doença se instalou. É fácil compreender. Um organismo que está doente há mais tempo, requer mais tempo para se recuperar. Num caso agudo, como numa amigdalite, por exemplo, a resposta é muito rápida, sem qualquer efeito colateral e garante que não haja recidiva.

ZX- A srª entende que existem avanços em relação ao emprego e à divulgação da Homeopatia?
JCV- Sem dúvida. Atualmente, a Homeopatia é uma Especialidade Médica reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina e pela Associação Médica Brasileira, sendo recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
É reconhecida no Brasil como especialidade médica, farmacêutica, veterinária e odontológica por seus respectivos Conselhos de Classe Profissional. Com isso, a Homeopatia se consolida pela ampla aplicabilidade na restauração da saúde, pela boa aceitação dos que dela se utilizam e principalmente pelo sucesso do tratamento.
Porém, apesar de incontestáveis avanços, dificuldades ainda são enfrentadas. São comuns ataques à Homeopatia, geralmente, por parte de pessoas que desconhecem e ignoram seus princípios, sua aplicação e sua eficiência, demonstrada em pacientes por todo o mundo, há mais de 2 séculos.

ZX- E em relação ao SUS?
JCV- Eu sou fã incondicional do SUS. Já há algum tempo, a Homeopatia faz parte das políticas de saúde pública e está presente em mais de 355 estabelecimentos da atenção básica do Sistema Único de Saúde em todo o Brasil, inclusive, a sua prática no SUS recebeu o Prêmio Sérgio Arouca, do Ministério da Saúde, em 2005. Mas, só em 2006 o Ministério da Saúde editou portaria que inclui no SUS a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, onde destaca-se, entre outras especialidades, a Homeopatia. Com este ato os gestores de saúde de estados e municípios são incentivados a oferecer em seus serviços o atendimento em Homeopatia. O Município de Maricá foi o primeiro no Brasil a abrir concurso para homeopatas na sua rede pública de saúde, lá em 2002, contando com esses profissionais em seus Postos de Saúde. Eu tive a satisfação de participar e ser aprovada nesse primeiro concurso e trabalhei como homeopata em três postos de saúde, nos bairros do Espraiado, Retiro, Barra de Maricá, no Posto de Saúde Central e no Ambulatório do Hospital Municipal Conde Modesto Leal, todos em Maricá, e pude constatar que há grande procura por essa especialidade. É importante citar que em 2017, foi publicada a lei nº 16.662, que instituiu o Serviço de Atendimento Homeopático na Rede Hospitalar Municipal de Saúde da cidade de São Paulo. (Diário Oficial da Cidade de São Paulo, quinta-feira, 18 de maio de 2017)

ZX- Dra Janete, aqui terminamos a nossa entrevista, com os nossos agradecimentos pela sua participação e aproveitamos para parabenizar os profissionais que se dedicam a essa especialidade tão importante e que tantos benefícios tem trazido a nossa população.

 

JCV- Eu também agradeço pela oportunidade e finalizo dizendo que a Homeopatia é uma forma de atenção à saúde que busca o equilíbrio da mente e do corpo, valorizando o Ser Humano como um todo. Por isso, eu parabenizando todos os homeopatas e as pessoas que utilizam e ajudam a divulgar a Homeopatia. E… Viva a Homeopatia!!

Contato: janetecvalladao@gmail.com

 

*Zola Xavier da Silveira – Jornalista, idealizador e produtor do documentário “Caçambada Cutuba- a história que Rondônia não escreveu” 2019.
Autor do livro “Uma Frente Popular no Oeste do Brasil” Editora Aquarius, 2023.

 

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