
ADAIDES BATISTA DOS SANTOS – DADÁ
Não tenho a nítida lembrança do dia em que o 5º Batalhão de Engenharia de Construção (BEC) chegou a Porto Velho. Digo: lembranças nítidas das imagens. Se chegou em fevereiro de 1966, contava eu então com 8 anos. Idade em que temos lembranças nítidas, quase nítidas, digo, das coisas e acontecimentos. Com absoluta certeza, foi um alvoroço na cidade. Um acontecimento. Uma cidade pacata como Porto Velho de 1966, onde nada acontecia. Vivíamos das nossas invenções e mentiras para acrescentar algo mais àquela vida parada de cidade pequena, perdida no meio da Amazônia. Pode parecer incrível, mas era como se todos conhecessem todos na cidade. Mas nós já tínhamos nossa rádio – a Rádio Caiari foi criada em 1961 – e dois jornais: Alto Madeira e O Guaporé.
Lembro que, na cidade, só se falava na chegada do 5º BEC. Acredito que tenha sido o fato mais extraordinário ocorrido na minha infância. Lembro que existia um misto de alegria, por uma coisa que achávamos que ia acontecer – o progresso –, e estranheza por nos sentirmos invadidos em nossa privacidade e em nossa vida tão pacata, humilde e, cá pra nós, tão calma e gostosa.
Os dias foram passando e as novidades, aos poucos, foram aparecendo.
Nessa época, nossa família morava no bairro Baixa do União. Morávamos num prosseguimento da rua do Coqueiro. A rua do Coqueiro hoje é a rua Euclides da Cunha.
Na rua do Coqueiro tinha casas residenciais e comerciais. Vindo nela do Centro rumo ao rio Madeira, passava pela Casa Coelho, o comércio do João Maranhense, e logo, antes de chegar aos trilhos da Madeira-Mamoré, tinha uma entrada para a esquerda, onde estava o comércio do seu Soares. Esse prosseguimento ia até a casa da Natir, quando, dobrando à direita, tinha a subida do Alto do Bode. Na frente da casa da dona Natir tinha a casa do Galego, que era brincante de Boi-Bumbá.
Nossa casa ficava quase no início desse prosseguimento da rua do Coqueiro. Próximo à nossa casa ficava a casa do Zenóbio, que trabalhava no T.T. Dias e tocava violão. Morava ao nosso lado o Alfredo Maia, que foi presidente do Clube São Domingos, proprietário de gráfica e marido da dona Jacilha, que trabalhava no Salft, que depois virou Ceron e hoje, privatizada, é a Energisa. Os fundos da nossa casa davam para um chavascal (um pequeno pântano) e depois era o famoso campo da Baixa do União, onde tinha um dos campeonatos mais bem disputados da cidade de Porto Velho. Depois do campo tinha uma ponte atravessando um pequeno igarapé; depois, seguia direto e ia dar no morro do Querosene, onde estava situada a escola Zenóbio da Costa.
Para ir para o Centro, de onde morávamos, pegava-se uma pequena rua que dava na Vila Cachoeira, cruzava uma pontizinha e chegava num caminho que passava por uns quintais cheios de mangueiras e pronto, estava no fórum Rui Barbosa, do lado do Cine Resky.
O mundo daquela gente era o bairro Baixa do União: beira de rio, Madeira-Mamoré, campeonato de futebol, carnaval no Imperial, cinemas no Resky e no Brasil, compras na feira, chegada do trem, pescaria no rio Madeira, serestas, novela de rádio, e essas coisas faziam o ambiente e eram a nossa cultura, cultura beiradeira. A cidade era comandada pelo rio. Quase tudo vinha pelo rio e ia pelo rio.
De repente, a notícia: o 5º BEC iria acabar com o bairro Baixa do União. Justificativa: local insalubre para residência humana e sujeito a alagações periódicas.
II
O 5º Batalhão de Engenharia de Construção (5º BEC) foi criado pelo Decreto nº 56.629, de 30 de julho de 1965, assinado pelo presidente Humberto de Alencar Castelo Branco. O decreto extinguiu o Batalhão de Serviços de Engenharia do 1º Grupamento de Engenharia, sediado em Campina Grande (PB), e criou, em seu lugar, o 5º BEC, com sede em Porto Velho.
A escolha de Porto Velho não foi casual. O governo federal pretendia ampliar a integração rodoviária da Amazônia Ocidental. A antiga BR-29, posteriormente denominada BR-364, ainda era uma estrada precária, especialmente no trecho entre o Centro-Oeste e Porto Velho. O 5º BEC seria uma das instituições encarregadas de transformar essa realidade.
A viagem até Porto Velho
A chegada do batalhão à capital rondoniense tem um aspecto quase épico.
O primeiro contingente saiu do antigo Estado da Guanabara, atual Rio de Janeiro, em 16 de janeiro de 1966, em um comboio formado por homens, veículos e equipamentos de engenharia. A viagem pela então precária malha rodoviária até Porto Velho durou pouco mais de um mês. Registros históricos apontam a chegada entre 17 e 20 de fevereiro de 1966, sendo 20 de fevereiro a data registrada pelo Iphan como instalação definitiva do batalhão em Porto Velho. A Prefeitura de Porto Velho registra 21 de fevereiro de 1966 como a data de instalação e atribui ao batalhão a missão inicial de restaurar a BR-29.
Quando chegou a Porto Velho, o 5º Batalhão de Engenharia de Construção (5º BEC) instalou-se em uma área de terra conhecida, na época, como “Campo do Mário Monteiro”, espaço que permanece, até os dias atuais, como sede do Batalhão.
Naquele período, o acesso ao quartel era bastante limitado. A única via que conduzia à área do 5º BEC era a rua Prudente de Moraes, por meio de um desvio que passava em frente à Usina São Domingos, conhecida popularmente pelos moradores como “Fábrica de Borracha”.
Devido a esse acesso limitado às instalações do 5º BEC podemos dizer que há controvérsia quanto à alegação para acabar com o bairro Baixo do União.
Vejam essas declarações:
Dona Marluce Barbosa do Nascimento e Silva, esposa do Cabo Possidônio, em entrevista ao jornalista Sílvio Santos (ZeKatraca), conta que o casal nasceu no Rio Grande do Norte e que Possidônio foi servir o Exército em Recife (PE) e, de lá, veio transferido para o 5º BEC em Porto Velho, isso em agosto de 1966.
Quando o BEC resolveu tirar o povo da Baixa da União, o Coronel Oliveira, então subcomandante, designou o Possidônio para comandar os soldados que trabalhariam na mudança para o novo bairro. “O que me foi informado foi que a retirada do povo da Baixa da União tinha como principal objetivo a abertura da avenida Norte-Sul (hoje Rogério Weber). Isso aconteceu no ano de 1968 pra 1969.”
A rio-grandense-do-norte Elita Gomes da Cunha conta, em entrevista ao jornalista Sílvio Santos (ZeKatraca), que morava na rua do “Coqueiro” (hoje Euclides da Cunha), quando o 5º BEC resolveu acabar com a Baixa da União. “A mudança pro bairro da Liberdade foi porque lá (na Baixa) tinha muita lama e queriam melhorar a situação daquele povo e também porque eles queriam fazer aquela rua que foi chamada de Norte-Sul e hoje é Rogério Weber. Aí viemos pra cá, pra debaixo da lona. Eles faziam só a frente da casa e, pra trás, a gente fez uma casinha de palha enquanto construía a outra.”
Mas precisamos dizer que o bairro Baixa do União era realmente um local insalubre e sujeito a alagações periódicas.
III
O 5º BEC tinha uma missão técnica e de engenharia que continuaria por décadas. Mas, historicamente, precisamos reconhecer que sua chegada ocorreu dentro de um projeto geopolítico de integração da Amazônia, no qual a infraestrutura rodoviária, a presença militar e a ocupação territorial estavam profundamente articuladas.
Mas a chegada do 5º BEC não foi apenas uma obra de engenharia. É preciso avaliar o impacto cultural da chegada do 5º BEC na pacata Porto Velho. O batalhão passou a ser uma instituição permanente dentro da sociedade porto-velhense.
Vieram militares. Vieram trabalhadores civis. Vieram famílias. Vieram equipamentos. Vieram novas relações econômicas. Vieram novos espaços urbanos. E, posteriormente, foram criados equipamentos e estruturas vinculados à presença militar. O atual Bairro Militar recebeu esse nome justamente em razão da instalação do 5º BEC. A Prefeitura registra que a área passou a concentrar os prédios necessários ao funcionamento da unidade.
Ou seja: o 5º BEC não apenas ocupou um espaço da cidade; ajudou a produzir um novo espaço urbano. E há uma consequência ainda maior. A presença do 5º BEC ocorreu no início de um dos maiores processos de transformação demográfica de Rondônia. A abertura das rodovias facilitou a chegada de milhares de migrantes ao território nas décadas seguintes. A estrada trouxe: migrantes, comércio, colonização, agricultura, cidades, pressão sobre a terra, transformação cultural.
E foi assim que a cidade teve uma área toda devastada: “O morro do Querosene veio abaixo. O Alto do Bode hoje é Baixo, e nem tem Baixa do União” – canta o poeta da cidade, Ernesto Melo, reportando-se a esse fato. E todo aquele povo ficou sem seu mundo. Foram construir tudo de novo em outras paragens, onde, segundo meu pai, era só mato e lama e que ele mesmo nunca iria praquele lugar. Para ele, era o fim do mundo. Imagina, é o bairro da Liberdade.
Foi muito difícil. Na Baixa do União tinha água encanada e luz elétrica. Então, meu pai resolveu comprar um terreno e construir uma casa no bairro do Areal. No início dos anos 70 do século XX, chegamos ao Areal.
E hoje, o antigo e tradicional bairro Baixa do União, um dos primeiros da cidade de Porto Velho, sequer é uma fotografia na parede, como a Itabira de Drummond. Só existe nas memórias de quem lá viveu ou conheceu, e esses, aos poucos, vão se despedindo da terra. As imagens da Baixa do União irão sumindo até o dia em que o último que lembre morrer. Aí, então, o bairro Baixa do União não existirá mais. Nem na saudade de alguém.
POESIAS QUE MARCARAM POESIAS QUE MARCARAM
Este canto da coluna é reservado para o cumprimento da minha obrigação com a poesia, que é na minha vida um sacerdócio. Aqui relembrarei poesias que marcaram nossa existência.
Confidência do Itabirano – Carlos Drummond de Andrade
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede
Mas como dói!


