
O engenheiro agrônomo que participou de uma das maiores transformações registradas na Amazônia e deu vida ao Polonoroeste.
Willian José Curi é um cidadão bofetense, de 78 anos, descendente de família árabe, casado desde 1974 com Rosa Curi. Pai de Paulo, Juliana, Melissa e Isadora. Formado em Engenharia Agrônoma pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, (Unesp) Campus Botucatu em 1971. Em fevereiro do ano seguinte chegou a Porto Velho, ávido por exercer a profissão. De cara morou em uma unidade de serviço militar. Durante o primeiro ano não conseguiu trabalho, mas fez muitos contatos. E no ano seguinte foi contratado pela Empresa de Assistência Técnica Rural – Emater, sendo destacado para assumir a unidade de Guajará-Mirim, mas permaneceu apenas três meses na Pérola do Mamoré. Retornou a sede em Porto Velho, onde exerceu algumas funções.
Naquele período, A Embrapa – A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, estava chegando ao então Território Federal de Rondônia e Willian foi convidado a assumir a diretoria do órgão, e foi praticamente responsável pela sua implantação. Nos cinco anos que esteve à frente da Embrapa desenvolveu vários projetos, alguns com influência até os dias atuais.
Além da Emater e da Embrapa, Willian também ocupou a cadeira principal da Secretaria de Agricultura, no governo de Jorge Teixeira e criou a Codaron (Companhia de Desenvolvimento Agrícola do Estado de Rondônia).
Em 1979 foi um dos pesquisadores contemplados com o prêmio Frederico de Menezes Veiga, reconhecimento nacional de contribuições de destaque para o avanço da pesquisa e o desenvolvimento agropecuário brasileiro. Aliás foi a única vez que Rondônia recebeu a honraria do referido prêmio, que contemplou pesquisadores de 1975 a 2015.
Prêmio Frederico Veiga
O trabalho apresentado por Willian Curi ao Prêmio Frederico de Menezes Veiga, teve como abordagem científica e institucional a ocupação e o desenvolvimento sustentável da Amazônia Ocidental focada nos seguintes aspectos: A adequação de sistemas de produção local, com estudo do solo, clima e ecossistema. A organização dos fluxos migratórios e a necessidade de produção e o levantamento de recursos naturais e a aptidão agrícola, com estratégias de pesquisas voltadas para o zoneamento e melhor aproveitamento da terra em um período de grande expansão migratória.
Tais ideias, mais tarde permeariam parte da espinha dorsal do Polonoroeste, o primeiro grande projeto voltado para o desenvolvimento do então Território Federal de Rondônia, responsável pela captação e aplicação de recursos junto ao Banco Mundial para pavimentação asfáltica da BR-364, na ligação Cuiabá a Porto Velho.
Polonoroeste
O Programa Integrado de Desenvolvimento do Noroeste do Brasil precisou de quatro anos para discussão e implantação. O projeto de Willian Curi, então secretário de Agricultura do governo de Jorge Teixeira, proporcionou a ele respaldo para participar e discutir diretamente com técnicos do Banco Mundial sobre os recursos necessários, cujos propósitos eram:
1- concorrer para a maior integração nacional;
2- promover a adequada ocupação demográfica da região-programa, absorvendo populações economicamente marginalizadas de outras regiões e proporcionando emprego;
3- lograr o aumento significativo na produção da região e na renda de sua população;
4- favorecer a redução das disparidades de desenvolvimento, a níveis inter e intra-regionais; e
5- assegurar o crescimento da produção em harmonia com as preocupações de preservação do sistema ecológico e de proteção às comunidades indígenas.
Resumindo, o Polonoroeste tinha a missão de promover a pavimentação asfáltica da BR-364 – ligando Cuiabá a Porto Velho, criar projetos de assentamentos para a grande massa de migrantes atraída ao novo eldorado, bem como estimular a ocupação e expansão agrícola em toda a região, isso tudo em um período prévio de quatro anos. Todavia, o programa precisou ser estendido até ao final da década de 80. Entretanto, pressões externas e do próprio Brasil, de movimentos ligados a defesa do meio ambiente, por volta de 1985, frearam o programa, mas as necessidades dos povos assentados continuavam. Só em Rondônia foram empregados mais de 434 milhões de dólares no período de 1981 a 1983, recursos oriundos de empréstimos do Banco Mundial para o governo federal.
Os dois dirigentes diretamente envolvidos no planejamento e implantação e execução do Polonoroeste foram os governadores Humberto Guedes e Jorge Teixeira, chefes do executivo que Willian Curi destaca como os melhores de Rondônia, homens com visão e com elevada capacidade de delegar tarefas com alto índice de resultados. Ao seu ver, foram formadas equipes excepcionais para atuarem no Polonoroeste e por vezes, os resultados positivos geravam ciúmes entre ocupantes do primeiro escalão. “Desde então nunca mais tivemos governadores com a mesma capacidade”, destaca.
Planafloro
O Planafloro (Plano Agropecuário e Florestal de Rondônia), embora pareça como a continuidade do Polonoroeste, foi um projeto com função corretiva. O programa agora era de âmbito estadual e a previsão era de um orçamento inferior ao primeiro. Sua implantação se dá a partir de setembro de 1992. A fonte de recursos continuava a ser o Banco Mundial. Estima-se que o custo total foi em torno de 229 milhões de dólares. Se o projeto anterior precisou de quatro anos para ser negociado, o Planafloro entrou em ação apenas seis meses após o início das tratativas, declara Willian Curi.
As funções básicas do Planafloro eram:
Promover o controle ambiental, desacelerando o processo de desmatamento, queimadas e degradação de recursos naturais.
Implantar e desenvolver um ordenamento territorial com a consolidação do zoneamento e definição de áreas com equilíbrio para a agricultura, preservação ambiental e demarcação de terras indígenas.
Permitir aos pequenos produtores acesso ao crédito rural, pesquisas e assistência técnica, bem como condições de infraestrutura com estradas melhores, regularização de assentamentos, entre outros.
Café e seringa
Enquanto esteve envolvido com a administração pública entre outras ações que contribuíram para o crescimento e desenvolvimento da agricultura, Willian Curi foi o responsável pela introdução do plantio do café em larga escala no estado, obtendo junto ao Instituto Brasileiro do Café (IBC) apoio para que estudos técnicos do solo fossem aqui desenvolvidos e o plantio de uma grande quantidade de mudas. Estes estudos iniciais serviram como embrião para o respeitado setor cafeeiro que Rondônia conquistou nos dias atuais.
O plantio da seringa também foi uma alternativa para a agricultura local. Para implementar o setor, Curi conseguiu por meio da Superintendência do Desenvolvimento da Borracha mudas de seringueira para a cobertura de 25 mil hectares.
Uma visão da atualidade
Afastado da vida pública há alguns anos, Willian Curi destaca que ainda hoje Rondônia é o único estado brasileiro que tem todas as suas reservas demarcadas, incluindo as indígenas, conquistas dos projetos Polonoroeste e Planafloro. Algumas delas passando por processo de invasão. “Recentemente tomei conhecimento que mais ou menos 12% das reservas estaduais estão invadidas, 6% das reservas nacionais e 0,5% das indígenas passam pelo mesmo problema”. Segundo ele, um dos acordos do Planafloro com o Banco Mundial era de que após dez anos seria feito uma nova tomada de informações das reservas e apresentada uma nova proposta, mas o tempo passou e nenhum governador desde então quis se envolver. “Na verdade, eles não querem perder votos dos eleitores que ocupam essas áreas”, destaca.
Solucionar muitos casos nem seria muito difícil, estima Curi, segundo ele, um levantamento de toda a situação do estado, com um novo mapeamento de todas as áreas ocupadas seria possível identificar todas as áreas invadidas e até sugere uma possível solução. “No caso de pequenos produtores uma acomodação poderia ser usada, assegurando que 50% da área fosse preservada”.
“Eu penso que os problemas mais difíceis de solucionar sejam os grandes empreendimentos, em especial os oriundos do Sul, presentes em grandes áreas com mais de 100 mil cabeças de gado, por exemplo. É preciso rever toda a situação, repor as reservas, fazer a proteção dos igarapés e das nascentes”, destaca, atendendo a exigência estabelecida lá no Planafloro ou de outro programa que o venha substituir.
O milho e a soja estão entre as produções mais fortes no setor agrícola na região, presentes especialmente nas áreas de projetos de colonização, para ambos os cultivos são necessárias grandes áreas. Para Willian Curi, muitas pessoas ainda pensam em fábrica de óleo quando se fala em grande plantio de soja, mas isso não é real. “Se fábrica de óleo fosse rentável, o norte do Mato Grosso teria uma quantidade enorme de indústrias”. A produção de soja e milho na Amazônia tem como fim a produção de ração animal, assim Rondônia poderia ter o incentivo para a implantação de indústrias voltadas para a suinocultura, piscicultura, criação de gado em confinamento entre outros.
Mas ele lembra que há outros produtos que deveriam receber maior atenção e incentivos, como o plantio do cacau, com a implantação de uma indústria de chocolate. Uma fábrica de café solúvel, tendo em vista que Rondônia produz grãos de excelente qualidade e também o cupuaçu, cuja indústria manufatora de doces poderia ser explorada com grande êxito. Os minérios não ficam de fora de possíveis projetos, como a cassiterita e o diamante. E quanto ao ouro, ao invés de dinamitar dragas, o governo deveria regulamentar a exploração e criar mecanismos legais para que as áreas danificadas com a extração de ouro sejam restauradas por aqueles que forem licenciados.
Para Willian Curi os governantes não devem fechar os olhos para as coisas erradas que muitos ainda praticam no afã do enriquecimento rápido, nem tão pouco desencadear medidas restritivas a quem produz. O governo tem as leis e a caneta para agir na medida certa.
Por Alice Thomaz e Mesquita de Figueiredo


