DIVERSIDADE CULTURAL E LINGUAGEM – Vamos tomar alguma coisa?

NAIR GURGEL 

Brasília é uma cidade muito educativa. 

Quem passa por lá com os olhos abertos aprende depressa que, no Brasil, a língua portuguesa não é apenas idioma: é instrumento de sobrevivência. Há palavras que, em certos ambientes, deixam de significar o que o dicionário diz e passam a significar o que a conveniência autoriza. Não é erro; é especialização semântica. 

Foi assim que ouvi, certa vez, dois políticos se encontrarem diante de um café, com a alegria de velhos colegas de ofício e a intimidade de quem já escapou junto de tempestades, CPIs, manchetes, gravações, delações, relatórios e outras formas modernas de folclore nacional. 

Um deles abriu os braços, sorridente, e disse: 

– Meu caro, há quanto tempo! Vamos tomar alguma coisa? 

O outro, sem alterar o nó da gravata nem a serenidade cívica do semblante, respondeu: 

– Vamos. De quem? 

E ali estava, em duas falas, uma aula completa sobre o Brasil. 

Porque o verbo tomar, em nosso país, é dos mais trabalhadores. Poucos verbos produzem tanto. Toma-se café, toma-se chuva, toma-se remédio, toma-se fôlego, toma-se decisão, toma-se posse, toma-se providência, quando sobra tempo e, em alguns casos mais criativos, toma-se também aquilo que não foi propriamente oferecido. 

É um verbo democrático: serve ao povo e aos seus representantes. 

No dicionário, “tomar” parece uma coisa inocente, quase doméstica. Mas, em Brasília, ele entra num curso intensivo de extensão política. Sai de lá mais experiente, mais ambíguo, mais nacional. Toma corpo, toma vulto, toma gosto pelo orçamento. E, quando menos se espera, já não se sabe se alguém vai tomar um cafezinho, tomar a palavra, tomar o poder ou tomar a verba da merenda. Tudo depende do contexto. E, no Brasil, contexto é a única coisa que nunca falta. 

E é por isso que o humor incomoda tanto. O humor tem o péssimo hábito de puxar a cadeira da pompa bem na hora em que ela vai sentar. Ele desconfia das frases prontas, boceja diante dos discursos muito redondos e faz perguntas inconvenientes às palavras bem-comportadas. O humor sabe que, entre o que se diz e o que se quer dizer, mora uma república inteira. 

Quando um político afirma, por exemplo, que está “trabalhando pelo povo”, convém sempre consultar a preposição. Trabalhando pelo povo? Trabalhando para o povo? Trabalhando sobre o povo? Ou, como tantas vezes parece, trabalhando apesar do povo? A gramática, se fosse ouvida, evitaria muitos mal-entendidos nacionais. 

Há também o verbo servir. Esse é outro que sofre muito. Em teoria, servidor público é aquele que serve ao público. Na prática, há quem entenda o cargo como uma espécie de bufê institucional: aproxima-se com o prato, ajeita o guardanapo, sorri para as câmeras e serve-se. O público, educado, fica olhando da porta, esperando sobrar a sobremesa da cidadania. Não falo isso por amargura. Falo por observação linguística. 

A política brasileira, vista de longe, parece um grande texto redigido a muitas mãos e revisto por ninguém. Há ali metáforas em excesso, eufemismos por atacado e uma verdadeira paixão nacional pela voz passiva. Nada acontece por sujeito determinado. Não se rouba: “recursos são desviados”. Não se mente: “houve ruído de comunicação”. Não se trai promessa: “o cenário mudou”. Não se abandona o povo: “foi preciso fazer ajustes”. O verbo vai para a sombra, o agente desaparece, e a culpa sai de fininho pela porta dos fundos, vestida de tecnicidade. É por isso que a piada resiste. 

Enquanto o discurso oficial sobe de elevador, o humor pega a escada e chega primeiro. Onde o pronunciamento fala em “reestruturação fiscal”, o povo traduz: “aperta daqui para soltar lá”. Onde a nota pública diz “alinhamento de base”, a rua suspeita que há muito desalinhamento sendo bem remunerado.  

A verdade é que o brasileiro, impedido de reformar o país com a velocidade que desejaria, reforma ao menos o sentido das palavras. É sua pequena vingança. Se não derruba o sistema, pelo menos desmoraliza o vocabulário dele. Há nisso uma forma modesta de resistência. O povo talvez não entre no plenário, mas entra na língua e, uma vez lá dentro, senta na cadeira principal. 

Por isso, toda vez que ouço certas expressões pomposas, “agenda positiva”, “compromisso histórico”, “governabilidade responsável”, “decisão técnica”, procuro o tradutor mais próximo. Em geral, encontro um vendedor de café, uma faxineira, um porteiro, uma aposentada na fila do banco ou um motorista de aplicativo. Essas pessoas sabem mais de semântica política do que muito especialista de televisão. Elas ouvem “medida impopular” e entendem, com admirável precisão científica: “lá vem a conta de novo”. 

Rir com inteligência é quase um serviço público. O humor não resolve o rombo, mas revela o furo. Não restitui o dinheiro, mas devolve o sentido. Não derruba sozinho os poderosos, mas ao menos lhes retira a fantasia de inevitáveis. 

Volto, então, àquela cena inicial, os dois homens sorrindo em Brasília, como se a República fosse uma varanda privativa e o Brasil um assunto a ser resolvido entre um gole e outro. 

– Vamos tomar alguma coisa? 

– Vamos. De quem? 

Acho que toda a nossa história recente cabe nessa brevidade. 

Espantoso é que, depois de tantas tomadas, o povo continue sendo obrigado a tomar conhecimento, tomar cuidado, tomar juízo e, no fim das contas, tomar na cabeça. 

Mas… enquanto a língua escapar viva pelas mãos de quem a usa, ainda haverá trocadilho, ironia, malícia e riso. E enquanto houver riso, ainda não terão tomado tudo. 

 

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