NAIR GURGEL
- POR QUE NARCISO ACHA FEIO QUE NÃO É ESPELHO? – VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E PRECONCEITO
Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto, chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto. É que Narciso acha feio o que não é espelho e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho […] (Caetano Veloso) 
Os versos da epígrafe foram extraídos de “Sampa”, canção de Caetano Veloso. O texto descortina com maestria o universo do impacto cultural causado pelo despreparo das pessoas em contato com outras culturas que não a sua. Uma xenofobia tênue, às vezes, porém radical e intolerante na maioria dos casos. A escolha desses versos não é casual: ela nasce de uma reflexão sobre a variação da linguagem.
Por que o narcisismo, em suas mais diferentes nuances, ainda permanece vivo nas sociedades atuais?
Por que, por exemplo, temos dificuldades enormes para aceitar hábitos e costumes que nos são estranhos e, principalmente, por que a tendência é classificar o que é diferente daquilo que vivenciamos no nosso dia a dia como feio, esquisito, errado ou anormal?
Nem quero teorizar muito e por isso, vou direto ao assunto – uma tentativa de entender “o avesso do avesso”, sem chamar “de mau gosto o que vi”.
Mudei de Mato Grosso do Sul para Porto Velho/Rondônia no ano de 1972. Casada com um amazonense, trouxe junto comigo dois filhos: um de 4 e outro de 2 anos. Paulo Henrique e Marcelo Antônio nasceram em Coxim/MS e chegaram pantaneiros: 1. /R/ retroflexo – (conhecido como “R caipira”) característico de áreas como o interior de São Paulo, Paraná, sul de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás; 2. Vestígios de Rotacismo – fenômeno linguístico e fonético onde uma consoante (geralmente a lateral /l/ ou outras consoantes como /d/, /n/, /z/) é substituída por um som rótico ([r] ou [ɾ]), transformando palavras como “planta” em “pranta” ou “problema” em “probrema”. É uma variação comum na fala informal, histórica ou rural, frequentemente estigmatizada; 3. Vocabulário característico – pandorga para pipa ou papagaio, mandioca para macaxeira, você (ou cê) no lugar de tu.
Acostumados com quitutes da avó materna, gostavam de arroz carreteiro, linguiça de porco, carne de sol, paçoca de carne seca etc. Logo, ainda no seio dos familiares de meu esposo, foram alvo de brincadeiras e risadas. Adaptaram-se rapidamente e logo aprenderam a usar o “tu” e o “pra ti”. Aprenderam a gostar de tambaqui assado, sarapatel de tartaruga, tacacá, cupuaçu, tucumã e outras variedades da culinária amazônica.
Após um ano, voltamos para rever a família e o choque foi maior. Quando as crianças falavam, todos riam e cheguei a ouvir uma sobrinha (de 8 anos) perguntar para sua mãe (minha irmã):
– Mãe, por que eles falam errado?
Como ainda não era linguista, fiquei calada, mas, confesso, incomodada.
O tempo passou e vieram mais dois filhos (agora portovelhenses): Daniele e Gustavo – dois “beradeiros” que já nasceram falando “legal, que só!”, “telezé?” Diziam frases como: “Quero um caminhão de brinquedo maceta, igual eu vi na televisão” ou “Vamos almoçar logo que eu tô brocado”.
Quando eu resolvi voltar a estudar, escolhi o Curso de Letras porque sempre gostei de livros e de línguas. Não imaginava que encontraria respostas para tantas dúvidas culturais. Formada, quis ser professora e pesquisadora. Escolhi as Comunidades Ribeirinhas. O contato com os povos tradicionais trouxe à tona a diversidade cultural e com ela a variação da linguagem. Assim, percebi que as diferenças são saudáveis e podem nos ensinar a conviver com naturalidade e sem preconceito.
Sabemos todos que a língua falada por uma pessoa é marca de sua identidade na relação com a comunidade em que vive. Por isso, discriminar um modo de falar é a mesma coisa que não respeitar os valores de outras pessoas que não falam como nós.
Esse modo de pensar e agir sempre existiu. É a imposição do poder sobre as diferenças, é a origem do conceito de “erro de fala” e, consequentemente, a incorporação de preconceitos como: “inferior”, “feia”, “pobre”, dados aos modos diferentes de se expressar.
Narcisismo desfeito leva à ampliação da visão cultural para além do espelho e Babel, uma metáfora para entender que as diferenças, longe de serem um problema, podem ajudar a compreender este mundo tão “pluri” e tão “multi” no qual convivemos diariamente com as diferenças.
O mito de Babel, que remonta à criação do mundo, revela a subalternidade, uma vez que tudo que lhe escapa é marginal ou marginalizado.
De acordo com Geraldi (2010), “Babel inaugura num só gesto dois movimentos: o mito da unidade perdida e o da diferença como castigo divino”. Assim, conviver com a diferença passa a ser uma condenação, não um enriquecimento das formas de experiência e compreensão do mundo e da vida.
Tempos depois, meu neto Felipe (7 anos), veio me visitar e contou uma novidade: – Vó, chegaram vizinhos novos. O casal, que mora ao lado da nossa casa, tem dois filhos e eles falam tudo errado.
Assustada, perguntei: – Errado como? Dê um exemplo.
E ele, prontamente, falou: – PoRto Velho, poRtão, maRtelo, caR…
Interrompi, imediatamente, dizendo: – Meu filho, isso não é erro. Isso é diferença, entende? Deixa eu te explicar: Você foi passear no Ceará para conhecer os familiares de sua mãe, não foi?
– Sim. E o que isso tem a ver?
-Tudo. Seus vizinhos, possivelmente, são do Paraná, mas podem ser de São Paulo, de Mato Grosso e outros estados. As pessoas, dependendo da região onde moram, adquirem sotaques diferentes – sons diferentes.
Pois bem – continuei. Lá no Ceará, você também notou alguma coisa diferente? Diante da afirmativa, disse: – Quando isso acontece, dizemos que ocorreu uma variação regional (diatópica) fonética, já que diz respeito aos sons da fala.
Cada região tem seus falares, cada grupo sociocultural tem o seu. Pode-se até afirmar que cada cidadão tem o seu. A essa característica da Língua damos o nome de variação linguística.
Quando falamos, não fazemos isso isoladamente. As frases ditas por cada um de nós não são construídas por nós próprios, mas sim por tudo o que nos fez tornar o que somos hoje: nossa família, o lugar em que nascemos e em que vivemos, as escolas em que estudamos (principalmente nas séries iniciais), as pessoas com as quais convivemos, os livros que lemos, os filmes a que assistimos, enfim, nossa maneira de falar é formada, não é criada. E é formada pouco a pouco. Aliás, nunca é totalmente acabada. Por isso, entendemos que uma língua é inseparável da cultura do local onde é falada.
Se o Brasil é um exemplo de nação multicultural, o estado de Rondônia é um laboratório vivo para estudos sobre multiculturalismo. Aqui vemos e vivemos uma variedade de culturas, de origens, de linguagens, por causa da forte migração ocorrida durante o processo de formação do Estado de Rondônia.
Dessa forma, é impossível afirmar que há uma cultura única, uma língua pura, um linguajar específico e uma única maneira de viver.
Que Narciso não nos vença. Que não confundamos identidade com arrogância, pertencimento com exclusão.
Afinal, o mundo é grande demais para caber dentro de um espelho.


