
“Vou divulgar no Brasil inteiro e no mundo inteiro o que é misoginia, o que é política de violência de gênero”, declara Neidinha Suruí.
O Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia manteve ontem por sete votos a zero a candidatura de Neidinha Suruí ao Senado da República e de Samuel Costa ao Governo do Estado de Rondônia. Ao tomar ciência da decisão, o presidente da Comissão Executiva Regional do PSB em Rondônia, Evaldo Costa, que também é membro da Executiva Nacional do PSB, afirmou que vai recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral.
Por outro lado, Neidinha Suruí reafirmou hoje: “Eu lamento muito – escreva aí o que eu vou te dizer: tu perde uma batalha, mas tu não perde a guerra. Se eles fizerem isso, eu vou ser candidata a Presidente do Brasil, aí vou divulgar no Brasil inteiro e no mundo inteiro o que é misoginia, o que é política de violência de gênero, e eu só lamento, porque vou ter que bater em gente que está fazendo campanha dizendo que defende mulheres. E aí, me desculpe, ele não vai ser governador de Pernambuco.”
A intervenção na Executiva Regional do PSB visa manter uma aliança do partido com o PT em apoio as candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva a presidência da República de Expedito Neto ao governo de Rondônia e João Campos ao governo de Pernambuco. Os partidários de João Campos objetivam fortalecer as candidaturas de Lula de Expedito Neto em Rondônia e João Campos em Pernambuco de olho na presidência em 2030.

Já que falávamos de quentura, vamos começar. Você candidata ao Senado Federal sabe que o Estado de Rondônia está tão vilipendiado, tão judiado, e nós vivemos um momento em que as alterações climáticas são absurdas. Não há política pública preocupada com isso. O que você pensa que fazer no Senado da República, uma casa conservadora?
Neidinha Suruí – Então, eu estou numa batalha, e vocês sabem disso, uma batalha, primeiro para manter a candidatura que mantive e até agora estou mantendo. Só que o partido não me deu um centavo de fundo partidário, então eu não tenho nenhum centavo, e eu olho para o meu Estado, para quem está nos assistindo: eu vou fazer minha autodescrição: eu sou Neidinha Suruí, candidata ao Senado, com o número 400, sou uma mulher de 1,60m, cabelos pretos, longos, com os olhos pretos, a pele um pouco cor de terra, e visto uma camiseta preta produzida pelos Malcriados, que é um grupo de música aqui de Rondônia. Uso um colar vermelho do Povo Paiter Suruí, símbolo de poder. Agora, voltando à nossa questão, eu eleita vou fazer o que nenhum que lá está fazendo até hoje nessa questão de emergência climática – porque a gente não vive mais uma mudança climática, a gente vive uma emergência. Mudança a gente já sofreu, lembra que tinha a história de 1,5% que era o ponto de não retorno? A gente já passou isso, não estamos mais em ponto de não retorno, agora o processo é mitigar e adaptar, é o que a gente consegue fazer, então precisa ter muito claro, e isso depende de políticas públicas que tirem o Estado dessa economia atrasada que nós vivemos, e eu digo isso com todas as letras, é uma economia atrasada, e por que ela é atrasada? Porque ela beneficia uma parcela pequenininha da sociedade de Rondônia, as pessoas, e aí eu estou frisando muito bem para todo mundo: eu não sou contra o agro, eu sou contra o ogro, e é bom para você que está nos assistindo, no programa: entender que o ogro é aquela parcela da sociedade, de empresários que não pensa a sociedade, que não pensa o Estado, ele só pensa nele, ele invade territórios indígenas, ele invade parques, ele invade inclusive propriedade privada, ele incentiva você a invadir, principalmente alguns que são políticos, para na época de campanha dizer: olha, se você me eleger, eu vou fazer a regularização fundiária, e vou lhe manter lá dentro da terra. Isso é mentira, não caia mais no conto do vigário, você está lá acreditando nisso há cinco, dez, 20 anos? Tem gente que está acreditando nessa conversa há 40 anos, então já está na hora de desistir desse empresário do ogro, desse político do ogro, que não pensa o Estado.

Como você vê Rondônia?
Olha, nós temos um Estado com produtores rurais, produtores da agroecologia, temos um Estado riquíssimo em castanhais, tu anda a estrada, pega a BR-364, e para onde tu olha, tu vê castanhal, só que destruído, já prestou atenção? Destruído para dar lugar à soja, e aí tu vê um pezinho de castanheira sozinho lá no meio do pasto, ou lá no meio da soja; aquela castanheira nunca mais vai produzir, porque castanheira para produzir, precisa do sub-bosque, que são aquelas árvores menores onde o zangão, que é a abelha que poliniza, precisa disso. Eu digo que todo mundo gosta de castanha, agora vai comprar um pacotinho de castanha para tu ver o preço. E Deus deu os castanhais de graça, estão lá na natureza, tu vai e coleta, vende e tu ganha dinheiro sem ter plantado a castanheira. Eles destroem para pôr soja, que eu vou lhe dizer que é para ir para a China; que gera pouco emprego, e não venha me dizer que soja gera muito emprego, porque não gera; quem gera muito emprego é o comércio, gera muito alimento, e aí eu estou falando de alimento mesmo, diversificado, vindo da agricultura familiar, do pequeno trabalhador. O sojeiro gera o grão que ele exporta, e uma pequena porcentagem da sociedade ganha com isso.
Aliás, quando se fala da cultura da soja, ela é de exportação, e seus produtores têm incentivos fiscais absurdos…
Eu estou brigando, porque assim, tu pega o Plano Safra, os grandes têm um monte de incentivos, conseguem ir lá nos bancos e pegar financiamento, enquanto o pequeno tem dificuldade de escoamento, porque não vão lá arrumar as vicinais para ele escoar, onde arruma é para os grandes, pode olhar; eu tenho andado e tenho visto estradas horríveis, então tu tem dificuldade de escoamento, tem dificuldade de financiamento e tu tem dificuldade de subsídio. Nós temos 21 reservas extrativistas em Rondônia, 21! contando federais e estaduais. Qual é o subsídio que é dado para a borracha, para a castanha, para o açaí, qual? Então eu brigo para que haja igualdade na distribuição, para que se incentive as pequenas indústrias, as mini-indústrias, nós não temos indústria, as agroindústrias, nós não temos; quando um pequeno, uma cooperativa pequena abre um agroindústria, ela não se mantém, porque ela não tem apoio.

E o governo do estado também não vai lá no assentamento para levar assistência técnica da Emater…
Exatamente, se fosse, aí fica o pequeno sem assistência, sem recurso, as pessoas acabam sendo pressionados pelos grandes, porque quando o cara envenena, se tu é um pequeno e tu tá aqui do lado de um grande produtor de grãos, e quando ele joga o veneno de avião, tu que é pequeno e tá fazendo uma produção orgânica, ela vai ser contaminada por aquele veneno que o vento vai levar.
O drone está sendo usado aqui em Rondônia e no Acre despejando herbicidas em grandes lavouras de soja. No assentamento Flor do Amazonas, ali no interior de Candeias do Jamari, as mulheres produtoras se queixam da contaminação da melancia por um pulgão que ninguém conhecia. O que você poderia fazer no Senado para impedir essa prática?
Eu acredito que se tu tem no cenário nacional, nas assembleias estaduais, na Câmara dos Deputados, políticos que vão lutar por legislação em apoio ao pequeno, e eu já fui ao Flor do Amazonas, então, aquele que vai olhar para o pequeno produtor, beneficiando realmente essa classe, tem como você pensar e aprovar leis. Por enquanto, o que nós temos são leis que beneficiam os grandes. Quer ver um exemplo disso? Tá a maior polêmica aí, porque o Ibama quer usar o drone na fiscalização, né? Isso é um assunto que eu gostaria de falar, porque aqueles com grandes multas a pagar querem que o crime cometido seja perdoado. A pessoa quer continuar jogando veneno, não sei se tu viu com o povo Puruborá: jogaram o veneno lá na terra deles e houve contaminação, e fugiram do flagra. O Ibama não tem efetivo suficiente para fazer fiscalização e nem condições – nem ele, nem o ICMBio.
O Ibama tem dificuldade de fiscalizar grandes de derrubadas no Pará, e quando conseguem chegar ao local já se deparam com fazendas e pecuária extensiva. Apesar do satélite, você vê a questão do Rio Madeira: a balsa puxa quantidade de 200, 300 metros de toras de um lado e do outro, e diz que não se consegue prova…
É pra continuar cometendo crime, porque é assim, se hoje todo mundo fala, ah, vamos usar IA, vamos usar as tecnologias, tu usa a tecnologia inclusive pra eleição, pra votar, aí tu não pode usar a tecnologia pra fiscalizar? Oxe, por quê? Sabe, que peso é esse que tá se dando que hoje tu usa a tecnologia pra fazer tratamento de saúde, mas não pode usar pra fiscalização? Desculpe, isso é quem quer continuar cometendo crime.
Na Terra Indígena Karipuna fizeram a desintrusão, na Terra Uru-eu-au-au o Ari morreu heroicamente em defesa daquele território, como é que está esse cenário hoje, entre a legalidade e a realidade?
Desintrusaram o pessoal dos Karipuna, mas não mantiveram um efetivo fiscalizando, e se tu não mantém a fiscalização vêm novamente invasores, e novos invasores até, né? Ou você tem um planejamento, e o pior, se tu não tem efetivo pra fiscalizar, se não tem um plano de implementação, um plano de gestão do território, o caso da Terra Karipuna, pra mim é rasgar dinheiro público – porque fazem a fiscalização, tiram, aí depois, a fiscalização some, volta tudo de novo. E vira esse círculo vicioso de: ah, vai lá, tira! Gasta dinheiro público, que podia colocar em algo efetivo, e não muda nada, então a gente precisa mudar esse sistema.
No governo Teixeira eu estive no governo Teixeira lá no Parque do Aripuanã com os Suruís, acompanhando o sertanista Apoena Meirelles, quando houve a retirada de colonos, na maioria capixabas. Conversei com Itabira e Anine, então dois jovens líderes. Apoena até brincava comigo: olha, você defende muito esses colonos, como é que vê a situação aqui? E aí foi derrubada a ponte, quebraram as pontes todas, e depois eu não vejo assim grande progresso naquela terra…
Amigo, tu tem que ir lá de novo, não fala isso não. Vou te levar lá.

Eu entendi, irei com prazer, mas me expressei mal aí, quando disse progresso; não vi avançar muito políticas de governo lá.
Não, esquece avanço de governo, eu vou te falar do avanço que a Kanindé (Etnoambiental) e os Paiter Suruís fizeram.
Pois é, porque a Kanindé já é mais recente pra mim.
É, 1992, né, mas eu tô lá antes de ser Kanindé, ó…
Hoje nós temos o melhor turismo, não tenho nem medo de dizer isso. Temos o melhor café, temos turismo, turismo mesmo: três tipos de turismo dentro do território, um deles lá na minha aldeia. O que a gente fez? Pegou o modelo arquitetônico tradicional, mas pegou materiais assim, modernos, e fizemos, a gente chama de ‘bangaloka’, mas são os chalés pra receber as pessoas, com ar-condicionado, restaurante, trilhas, caminhada. Tu sabia que nós temos o primeiro jardim botânico em terra indígena? É nós estamos lá. Temos o melhor café, ganhamos prêmios, vamos inaugurar agora uma fábrica de chocolate, eu acho que daqui até final de setembro, antes da eleição. Nós temos uma fábrica pra castanha, piscicultura…e reflorestamos, porque vocês sabem que tinha muito roubo de madeira lá. A gente fez um levantamento de quanto tinha sido roubado de madeira e chegamos à conclusão que 7% do território tinha sido dilapidado.
E o que fizeram para diminuir esse impacto?
Nós fizemos um projeto de reflorestamento que tem mais de um milhão de árvores plantadas, isso eu tô te falando lá atrás, e a gente veio continuando com esse projeto. Nós conseguimos investir para que houvesse estudo, fizemos no País o primeiro plano de gestão de 50 anos, pensamos, planejamos 50 anos pra frente, porque a gente não estava planejando pra governo, a gente planejava pro povo. E se eu for eleita, eu vou planejar pro povo, eu não vou planejar pra governo. O governo que assumir, eu vou trabalhar, vou sentar com ele, porque você tem que pensar o povo. Você não tem que pensar só 4 anos de governo, oito anos, você tem que pensar pro povo. E o melhor exemplo desse Estado, pensar o povo, se chama Paiter Suruí, plano de gestão de 50 anos, 50 anos na frente, nós já estamos com 10 anos de execução, nós já saímos de muito coisa ruim que a gente teve.
Quando ouvimos o agente de saúde Sr. Luiz, irmão do Almir e do Gasodah Suruí falarem a respeito das plantas medicinais usadas contra sinusite, enxaqueca, diabetes, o que está faltando para a integração entre o saber acadêmico e o saber indígena, a cidade e a floresta?
Pra mim haverá, sabe quando? Quando as pessoas pararem de achar que governo é só pra aqueles quatro anos. Quando investirem de verdade na sociedade, quando o governo investir em estudo e pesquisa. Este País não investe em pesquisa. Os pesquisadores ficam com o pires na mão para trabalhar, a gente tem que mudar isso.
Nessa linha, Neidinha, quero falar sobre a questão mineral: nós temos muitas riquezas minerais, tem terras raras e um tanto mais. Como você vê a questão dos diamantes do Roosevelt?
A minha opinião sobre isso?
Não apenas uma opinião, como você pensa, com o que se faz? Porque pra se mexer é preciso política pública, é preciso que o governo tenha participação, é preciso entrar numa casa de moribundo, né? O que você pensa fazer?
Ó, primeiro eu quero deixar claro que eu sou contra a garimpo ilegal.
Porque estou vendo gente defendendo a garimpo ilegal. A segunda coisa, tem que discutir não só com o grupo, tem que discutir, garimpagem em terra indígena com todos os povos, não pode ser só com o grupo. A terceira coisa é discutir com os indígenas: sentam na mesa: indígenas, governo, sociedade civil organizada, mineradoras e associação de garimpeiros legalizados. Sentam e vamos pensar, sabe? Porque, por exemplo, o mandado de injunção do (ministro) Flávio Dino, que todo mundo pensa que liberou o garimpo… mentira, tu vai ler esse mandado, os indígenas nunca vão conseguir cumprir aquilo. Gente, me desculpe, aquilo é enganação. Vamos discutir sério, sem essa coisa: ah, não vou chamar Neidinha porque ela é contra, mas chamar para ela dizer como é que é, como é que na cabeça dela é, sabe? Tem um pessoal do Ethos que faz uma discussão chamada Diálogos Improváveis. Improváveis? É, Diálogos Improváveis, ou seja, colocar na mesa gente que é a favor e que é contra para fazer a discussão. Eu defendo isso, eu defendo que a gente tem que discutir juntos, não dá para ser só um lado, não se faz política pública apenas com o lado decidido, política pública tem que ser como diz o nome, discutir é com o público.
N.R. Criado em 1998, o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social é uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) cuja missão é mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerirem seus negócios de forma socialmente responsável, tornando-as parceiras na construção de uma sociedade justa, ética e sustentável.
Está na pauta de julgamentos hoje, no TRE, a sua candidatura e a de Samuel Costa a governador, devido ao ato do interventor Evaldo Costa, representando o deputado João Campos (PSB-PE), candidato a governador naquele estado. Comenta-se que é pouco provável um resultado favorável aos senhores, mesmo que isso aconteça, o interventor assegurou que entrará com recurso no TSE com objetivo de afastá-los da disputa.
Em havendo uma decisão desfavorável, começa já no outro dia a luta para 2030?
Neidinha Suruí, contundente:
Escreva aí o que eu vou te dizer: tu perde uma batalha, mas tu não perde a guerra. Se eles fizerem isso, eu vou ser candidata a Presidente do Brasil, aí vou divulgar no Brasil inteiro e no mundo inteiro o que é misoginia, o que é política de violência de gênero, e eu só lamento, porque vou ter que bater em gente que está fazendo campanha dizendo que defende mulheres. E aí, me desculpe, ele não vai ser governador de Pernambuco.


